segunda-feira, 31 de outubro de 2011

TECNOLOGIA ASSISTIVA – TA

MÓDULO 3 TECNOLOGIA ASSISTIVA – TA:
APLICAÇÕES NA EDUCAÇÃO
Carga horária: 25 horas
Professoras:
Rita Bersch
Rosângela Machado

Apresentação


A educação inclusiva tem por principio o reconhecimento e a valorização das diferenças humanas o que requer das escolas ambientes com condições de garantir acesso, participação, interação e autonomia para todos os alunos. Acolher as diferenças é fazer da escola um espaço em que ninguém se sinta excluído.
Consoante com o movimento da educação inclusiva, a educação especial passa a ser um complemento a formação do aluno com deficiência, ou seja, ela é que vai prover, por meio do Atendimento educacional especializado – AEE, os serviços e recursos de acessibilidade para que este aluno tenha efetiva participação nas atividades da educação escolar.
O AEE faz uso da Tecnologia Assistiva – TA e suas categorias direcionadas ao aluno com deficiência, visando à inclusão escolar. A TA é uma aliada do AEE porque possibilita uma gama de serviços e recursos que auxiliam os alunos na resolução de suas tarefas funcionais.
As dificuldades funcionais na realização de tarefas podem ser transformadas em possibilidades funcionais e participação, se for devidamente provido o recurso necessário para o aluno.
Por isso, o AEE aparece como uma das garantias de inclusão e a tecnologia assistiva como uma ferramenta que possibilita ao aluno ser um sujeito atuante no seu processo de aprendizagem.
A implementação de políticas de AEE envolve a compreensão da educação especial na perspectiva da educação inclusiva, o estudo de novos
conceitos, a busca de novas práticas, a perseverança e a participação de todos que buscam uma escola acessível.
Cada criança é uma criança. As informações sobre ela não devem considerar apenas o tipo de deficiência ou dados clínicos a seu respeito. Deve considerar, também, o contexto educacional ao qual ela está inserida, atendo-se as suas necessidades, habilidades, dificuldades, gostos, desejos, preferências, entre outros elementos.
Essas informações contribuem para a elaboração de um plano de AEE, definindo os objetivos, a organização do atendimento (freqüência, duração, individual ou coletiva, período do atendimento), as atividades a serem desenvolvidas, as parcerias e a tecnologia assistiva adequada a cada situação.
Assim, o módulo de Tecnologia Assisitiva – TA: aplicações na educação tem por finalidade subsidiar os educadores e gestores das redes de ensino, sobretudo os professores que atuam no AEE, para que discutam e proponham, a partir da realidade de suas redes, ações concretas de implementação da TA.
Os assuntos tratados demonstram a viabilidade de acesso de uma criança ou jovem com deficiência a escola comum.

Inclusão escolar, atendimento educacional especializado, tecnologia assistiva.


Unidade A – Educação especial na perspectiva da educação inclusiva


Esta unidade tem por finalidade abordar o conceito de educação especial com base nos pressupostos da educação inclusiva, destacando a Política Nacional de Educação Especial da Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação.
A unidade apresenta, também, atendimento educacional especializado – AEE, como um serviço da educação especial, que oferece aos alunos com deficiência serviços e recursos da tecnologia assistiva.
A1 – A educação especial
O movimento em favor da inclusão escolar é mundial, envolve diversos países que defendem o direito de todas as crianças e jovens à educação e condena toda forma de segregação e exclusão.
A inclusão escolar denuncia o esgotamento das práticas da escola comum, com base no modelo transmissivo do conhecimento, na espera pelo aluno ideal, na padronização dos resultados esperados pela avaliação classificatória, no currículo organizado de forma disciplinar e universal, na repetência, na evasão, nas turmas organizadas por série, enfim, em tantos outros elementos que compõem o universo das práticas escolares.
A inclusão implica uma reforma radical nas escolas em termos de currículo, avaliação, pedagogia e formas de agrupamento dos alunos nas atividades de sala de aula. Ela é baseada em um sistema de valores que faz com que todos se sintam bem-vindos e celebra a diversidade que tem como base o gênero, a nacionalidade, a raça, a linguagem de origem, o background social, o nível de aquisição educacional ou a deficiência. (MITTLER, 2003, p. 34).
Da mesma forma, a educação inclusiva deflagrou o esgotamento das práticas tradicionais de educação especial de ser um sistema paralelo, substitutivo do ensino comum.
A perspectiva inclusiva traz um novo conceito de educação especial e, conseqüentemente, a inovação de sua prática.
É neste contexto que se insere a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, lançada em 2008 pelo Ministério da Educação/Secretaria de Educação Especial – MEC/SEESP. Esta Política constitui um marco quando ressignifica a educação especial e sua grande novidade é o atendimento educacional especializado, visando atender às especificidades dos alunos que constituem seu público alvo.
O papel da educação especial, na perspectiva inclusiva, é, pois, muito importante e não pode ser negado, mas dentro dos limites de suas atribuições, sem que sejam extrapolados os seus espaços de atuação específica. Essas atribuições complementam e apóiam o processo de escolarização de alunos com deficiência regularmente matriculados nas escolas comuns. (MANTOAN, 2004, p. 43).
Os alunos com deficiência não são mais escolarizados em escolas especiais ou classes especiais. A educação especial é uma modalidade de ensino que perpassa todos os níveis, etapas e demais modalidades de ensino, sem substituí-los.
Portanto, há muito a ser feito para que a educação especial na perspectiva da educação inclusiva possa ser compreendida e praticada nas redes de ensino.
Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva: acessar o site http://portal.mec.gov.br entrar em Secretaria de Educação Especial, publicações, revista n.05
A2 – O Atendimento Educacional Especializado – AEE
A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva define que:
O atendimento educacional especializado identifica, elabora e organiza recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem as barreiras para a plena participação dos alunos, considerando as suas necessidades específicas. As atividades desenvolvidas no atendimento educacional especializado diferenciam-se daquelas realizadas na sala de aula comum, não sendo substitutivas à escolarização. (BRASIL, 2008)
No contexto da Política, o AEE é um serviço da educação especial e deve ser parte integrante do projeto pedagógico da escola comum. Ele constitui oferta obrigatória dos sistemas de ensino, todavia, participam do AEE os alunos que dele necessitam.
O AEE é destinado aos alunos com deficiência que aprendam a utilizar materiais, equipamentos, sistemas, códigos, entre outros que proporcionam acesso, autonomia, independência e participação.
Batista e Mantoan (2005, p. 26) revelam a importância desse atendimento, quando afirmam que:
O atendimento educacional especializado garante a inclusão escolar de alunos com deficiência, na medida em que lhes oferece o aprendizado de conhecimento, técnicas, utilização de recursos
informatizados, enfim tudo que difere dos currículos acadêmicos que ele aprenderá nas salas de aula das escolas comuns. Ele é necessário e mesmo imprescindível, para que sejam ultrapassadas as barreiras que certos conhecimentos, linguagens, recursos apresentam para que os alunos com deficiência possam aprender nas salas de aula comum do ensino regular. Portanto, esse atendimento não é facilitado, mas facilitador, não é adaptado, mas permite ao aluno adaptar-se às exigências do ensino comum, não é substitutivo, mas complementar ao ensino regular.
Para atuar no AEE, o professor deverá se adequar aos novos conhecimentos que são próprios do AEE. A formação continuada de professores para o AEE, por meio de cursos de extensão, aperfeiçoamento ou especialização, constitui-se uma forma de aprofundar conhecimentos e de atualizar as práticas.
Esta formação deve partir de situações reais do cotidiano escolar e do estudo da tecnologia assistiva que o aluno envolvido naquela situação real necessita no momento. Desta forma, a formação de professores para o AEE não tem base os pressuposto clínicos. Os pressupostos educacionais, o conhecimento sobre o aluno e os serviços e recursos da TA devem ser a base da formação para que o professor possa atuar com cada tipo de deficiência.
É na interação com o aluno que o professor vai identificando, conhecendo, pesquisando, aplicando e avaliando os recursos da TA.
Importante destacar que o professor do AEE estabelece parcerias e interlocução com profissionais da área clínica, no entanto, a atuação de cada área – educacional e clínica – deve estar bem definida.

Unidade B – A Tecnologia Assistiva – TA
A tecnologia assistiva constitui uma área de conhecimento de fundamental importância para as práticas de AEE. A partir da TA, é possível alcançar um dos maiores objetivos do AEE: garantir participação dos alunos com deficiência nas atividades da educação escolar.
O Ministério de Educação tem investido, técnica e financeiramente, para a implementação da TA na escola comum, por meio do espaço destinado a realização do AEE: as salas de recursos multifuncionais.
Desta forma, essa unidade tem por objetivo apresentar o conceito, o objetivo, a composição de TA e as terminologias adotadas, sobretudo nos setores acadêmico, político e educacional, para se referirem a TA.
B1. Conceito e objetivo da TA
Tecnologia assistiva – TA é um termo ainda pouco conhecido, utilizado para identificar todo o arsenal de recursos e serviços que contribuem para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiência e, conseqüentemente, promover vida independente e inclusão.
Em sentido amplo, a evolução tecnológica caminha na direção de tornar a vida mais fácil. Sem nos apercebermos, utilizamos constantemente ferramentas que foram especialmente desenvolvidas para favorecer e simplificar as atividades do cotidiano, como os talheres, canetas, computadores, controle remoto, automóveis, telefones celulares, relógio, enfim, uma interminável lista de recursos que já estão assimilados a nossa rotina e facilitam o desempenho de funções ou tarefas.
Assim, é simples constatar que a tecnologia facilita a vida das pessoas.
Em se tratando de uma pessoa com deficiência, a tecnologia se apresenta não só para facilitar, mas para tornar possível a realização de uma ação necessária ou desejada. Por meio da tecnologia, uma pessoa com deficiência tem possibilidades de mobilidade, controle de ambiente, acesso ao computador, comunicação, realização de tarefas do cotidiano, entre outras atividades.
Cook e Hussey (1995)  definem a TA, com base no conceito do American with Disabilities Act – ADA , como uma ampla gama de equipamentos, serviços, estratégias e práticas concebidas e aplicadas para melhorar os problemas funcionais encontrados pelos indivíduos com deficiências.
A TA deve ser, então, entendida como um auxílio que promoverá a ampliação de uma habilidade funcional deficitária, ou possibilitará a realização da função desejada e que se encontra impedida por circunstância de deficiência ou pelo envelhecimento. Podemos dizer que o objetivo maior da TA é proporcionar à pessoa com deficiência a autonomia, independência funcional, qualidade de vida e inclusão social.
A legislação brasileira também apresenta a terminologia Ajudas Técnicas para referir-se ao que atualmente denominamos Tecnologia Assistiva.
O Decreto 3.298 de 19994, no artigo 19, define o conceito de ajudas técnicas:
Art. 19. Consideram-se ajudas técnicas, para os efeitos deste Decreto, os elementos que permitem compensar uma ou mais limitações funcionais motoras, sensoriais ou mentais da pessoa portadora de deficiência, com o objetivo de permitir-lhe superar as barreiras da comunicação e da mobilidade e de possibilitar sua plena inclusão social. (BRASIL, 1999)
No parágrafo único, do artigo 19, o texto relaciona, de forma clara, a seguinte lista de ajudas técnicas apresentadas como itens de direito:
Parágrafo único. São ajudas técnicas:
I - próteses auditivas, visuais e físicas;
II - órteses que favoreçam a adequação funcional;
III - equipamentos e elementos necessários à terapia e reabilitação da pessoa portadora de deficiência;
IV - equipamentos, maquinarias e utensílios de trabalho especialmente desenhados ou adaptados para uso por pessoa portadora de deficiência;
V - elementos de mobilidade, cuidado e higiene pessoal necessários para facilitar a autonomia e a segurança da pessoa portadora de deficiência;
VI - elementos especiais para facilitar a comunicação, a informação e a sinalização para pessoa portadora de deficiência;
VII - equipamentos e material pedagógico especial para educação, capacitação e recreação da pessoa portadora de deficiência;
VIII - adaptações ambientais e outras que garantam o acesso, a melhoria funcional e a autonomia pessoal; e
IX - bolsas coletoras para os portadores de ostomia. (BRASIL, 1999)
Também o Decreto 5.296 de 20045, que regulamenta as Leis nos 10.048/2000 e 10.098/ 2000, trata, em seu Capítulo VII, das ajudas técnicas, onde descreve várias intenções governamentais, além de referir à instituição do Comitê de Ajudas Técnicas. No artigo 61, o Decreto define o conceito de ajudas técnicas:
Art. 61. Para os fins deste Decreto, consideram-se ajudas técnicas os produtos, instrumentos, equipamentos ou tecnologia adaptados ou especialmente projetados para melhorar a funcionalidade da pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida, favorecendo a autonomia pessoal, total ou assistida. (BRASIL, 2004)
Em 16 de novembro de 2006, por meio da Portaria nº 142, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos – SEDH, da Presidência da República, instituiu o Comitê de Ajudas Técnicas – CAT. Este Comitê reúne um grupo de especialistas brasileiros em Tecnologia Assistiva e representantes de órgãos governamentais em uma agenda de trabalho. Os objetivos da CAT são: apresentar propostas de políticas governamentais e parcerias entre a sociedade civil e órgãos públicos referentes à área de tecnologia assistiva; estruturar as diretrizes da área de conhecimento e realizar levantamento dos recursos humanos que atualmente trabalham com o tema; detectar os centros regionais de referência, objetivando a formação de rede nacional integrada; estimular nas esferas federal, estadual, municipal, a criação de centros de referência; propor a criação de cursos na área de tecnologia assistiva, bem como o desenvolvimento de outras ações com o objetivo de formar recursos humanos qualificados e propor a elaboração de estudos e pesquisas, relacionados com o tema da tecnologia assistiva. (BRASIL, 2007)
O CAT, após realizar um estudo do referencial teórico atual, definiu e aprovou, em 14 de dezembro de 2007, o seu conceito de tecnologia assistiva:

Tecnologia Assistiva é uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação, de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social. (BRASIL, 2007)
B2. Terminologia aplicada no Brasil
Existem muito termos para designar a TA, como, também, vários conceitos que diferem, eventualmente, na amplitude, restringindo-se à equipamentos ou englobando serviços e práticas favoráveis ao desenvolvimento de habilidades funcionais de pessoas com deficiência. Os termos mais frequentemente utilizados são: Ajudas Técnicas, Tecnologia de Apoio, Tecnologia Assistiva.
Com o objetivo de buscar uma uniformidade de terminologia em nosso país, o Comitê de Ajudas Técnicas da Secretaria dos Direitos Humanos – CAT/SEDH fez uma pesquisa internacional e nacional e constatou, em agosto de 2007, que o termo tecnologia assistiva é o mais adequado para a terminologia aplicada no Brasil. Desta forma, o CAT/SEDH adotará o termo tecnologia assistiva em todos os seus documentos e recomenda que este termo seja utilizado na formação de recursos humanos, nas pesquisas e nos referenciais teóricos brasileiros.
Uma das justificativas da aprovação do nome tecnologia assistiva pelo CAT/SEDH se deu pela preferência nacional do termo firmada no meio acadêmico, nas organizações de pessoas com deficiência, em setores governamentais, institutos de pesquisas e no mercado nacional de produtos. Outro ponto relevante foi à percepção que não existe um consenso internacional para terminologia. Julgou-se também que o termo tecnologia assistiva seria o mais apropriado para atender o objetivo do CAT/SEDH de propor a estruturação de diretrizes para a formulação de uma área de conhecimento. Houve ainda a recomendação de utilização do termo no singular, por se tratar de área de conhecimento.
Como o termo ajudas técnicas ainda consta na legislação brasileira,
recomendou-se identificar as duas expressões, Ajudas Técnicas e Tecnologia Assistiva, como sinônimas e proceder a encaminhamentos possíveis para revisão de nomenclatura em instrumentos legais.
B3. Composição da TA
O texto do American with Disabilities Act – ADA trata da TA como composta de Recursos e Serviços, assim definida:
Recursos: todo e qualquer item, equipamento ou parte dele, produto ou sistema fabricado em série ou sob-medida utilizado para aumentar, manter ou melhorar as capacidades funcionais das pessoas com deficiência.
Serviços: aqueles que auxiliam diretamente uma pessoa com deficiência a selecionar, comprar ou usar os recursos acima definidos. (Public Law 100-407- EUA)
É importante ressaltar que tanto no conceito como na composição da TA, encontramos os termos “Recursos” e “Serviços”. Então, objetivando ampliar as atividades funcionais de uma pessoa com deficiência, coloca-se a sua disposição um recurso facilitador, um instrumento ou utensílio que, especificamente, contribui no desempenho da tarefa desejada.
Os serviços de TA auxiliam o usuário na seleção ou confecção do recurso apropriado, na elaboração de estratégias para um bom desempenho funcional e na orientação e ensino de utilização do recurso na tarefa pretendida. Para este fim, realiza a avaliação das habilidades e necessidades do usuário, do contexto em que está ou deseja estar inserido e, com estes dados, trabalha junto com ele (o usuário) no sentido da promoção de autonomia, independência e inclusão.
O documento proposto no Empowering Users Through Assistive Technology – EUSTAT, elaborado por uma comissão de Instituições especializadas em TA em países da União Européia, traz incorporado ao conceito de TA as varias ações em favor da funcionalidade das pessoas com deficiência, afirmando:
...em primeiro lugar, o termo tecnologia não indica apenas objetos físicos, como dispositivos ou equipamento, mas antes se refere mais genericamente a produtos, contextos organizacionais ou modos de agir, que encerram uma série de princípios e componentes técnicos. (EUROPEAN COMMISSION – DGXIII, 1998)
O conceito brasileiro do CAT procurou dar uma grande abrangência ao tema da TA, incorporando a ele “tudo o que se refere a produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que visam à ampliação da funcionalidade e participação de pessoas com deficiência”. (BRASIL 2007).
A composição da TA engloba, portanto, não só artefatos ou instrumentos físicos, mas todas as ações implicadas, estratégias e metodologias, que possam contribuir para a ampliação da participação ativa e autônoma da pessoa com deficiência. Neste sentido, os Serviços de TA devem disponibilizar conhecimentos para que seus usuários possam apresentar suas demandas funcionais e tomar a decisão sobre a melhor tecnologia que os apoiará na resolução dos problemas.
B4. Desenho Universal
Faz-se necessário abordar o conceito de Desenho Universal para diferenciá-lo do conceito de TA. O Desenho Universal é uma área mais abrangente que a TA, uma vez que se destina a encontrar soluções de produtos que incluam o maior número de usuários possíveis.
O Decreto n° 5.296/2004, no art. 8º, inciso IX, inclui, também, o conceito de Desenho Universal, considerando como:
...concepção de espaços, artefatos e produtos que visam atender simultaneamente todas as pessoas, com diferentes características antropométricas e sensoriais, de forma autônoma, segura e confortável, constituindo-se nos elementos ou soluções que compõem a acessibilidade. (Brasil, 2004)
Este conceito contempla as diferenças humanas e deve ser estudado e praticado por engenheiros de edificações e de produtos, arquitetos e designers, entre outros profissionais.
Se os projetos de arquitetura e engenharia, por exemplo, fossem concebidos na perspectiva do desenho universal, não seria necessário o investimento em reformas e adequações para atender as necessidades específicas das pessoas. Os ambientes e produtos seriam, originalmente, criados para atender grande parte da população, independente de sua idade,
tamanho, condição física ou sensorial7.
Na Conferência Internacional sobre Desenho Universal: projetando para o século XXI, realizada em dezembro de 2004, foi elaborada a Carta do Rio por um grupo de representantes de Organizações não-governamentais – ONGs e por setores da sociedade civil, provenientes dos países da América Latina. A Carta afirma que:
O propósito do desenho universal é atender às necessidades e viabilizar a participação social e o acesso aos bens e serviços a maior gama possível de usuários, contribuindo para a inclusão das pessoas que estão impedidas de interagir na sociedade e para o seu desenvolvimento. Exemplos destes grupos excluídos são: as pessoas pobres, as pessoas marginalizadas por sua condição cultural, racial, étnica, pessoas com diferentes tipos de deficiência, pessoas muito obesas e mulheres grávidas, pessoas muito altas ou muito baixas, inclusive crianças, e outras, que por diferentes razões são também excluídas da participação social. (CARTA DO RIO, 2004)
A escola é um dos segmentos da sociedade que deverá redesenhar-se para atender a todos. Este novo desenho da escola não se restringe à sua estrutura física e aos materiais disponibilizados para a aprendizagem. Uma escola desenhada para todos é aquela que reconhece que cada aluno é diferente e o seu desafio é o de valorizar estas diferenças para o enriquecimento da ação pedagógica.

Unidade C – Classificação em categorias da TA
Existem documentos internacionais que organizam a TA em categorias de acordo com os objetivos funcionais a que se destinam.
A Norma Internacional ISO 9999:2002, aplicada em vários países, traz uma classificação de recursos designada para os produtos e ferramentas da TA. Essa classificação é organizada em 11 classes e não abrange os serviços da TA.
O Sistema Nacional de Classificação dos Recursos e Serviços de TA, formulado pelo National Institute on Disability and Rehabilitation Research Office of Special Education Programs (U.S. Department of Education, 2000), diferencia-se da ISO 9999 ao apresentar, além da descrição ordenada dos produtos, o conceito e a descrição de serviços de TA.
O modelo HEART (Horizontal European Activities in Rehabilitation Technology) de classificação de TA, elaborado por um grupo de pesquisadores de vários países da União Européia, é referido no documento do consórcio EUSTAT (Empowering Users Through Assistive Technology). Este modelo de classificação é considerado, pelos pesquisadores europeus, como sendo o mais apropriado para a formação dos usuários finais em TA, bem como para formação de recursos humanos nesta área. (EUROPEAN COMMISSION – DGXIII, 1998)
Ao apresentarmos uma classificação de TA, seguida de redefinições por categorias, destacamos que a sua importância está no fato de ela organizar a utilização, prescrição, estudo e pesquisa destes recursos e serviços, além de oferecer ao mercado focos específicos de trabalho e especialização.
No entanto, a classificação em TA varia de acordo com os diferentes autores e serviços.8 Desta forma, não é nosso propósito apresentar uma classificação oficial e definitiva.
A classificação que segue tem uma finalidade didática e foi construída com o objetivo de esclarecer os profissionais da escola e orientar o trabalho do professor do atendimento educacional especializado.
C1. Auxílios para a vida diária e vida prática
Auxílios para a vida diária e vida prática é uma categoria da TA que se refere aos materiais e produtos que facilitam o desempenho funcional de pessoas com deficiência em tarefas da vida cotidiana, tais como: vestir-se, alimentar-se, cozinhar, tomar banho.
São exemplos de materiais e produtos os talheres modificados, utensílios domésticos que favorecem o preparo do alimento, roupas desenhadas para facilitar o vestir e o despir, abotoadores, entre outros.9
No contexto educacional, visando à inclusão dos alunos com deficiência, encontramos vários recursos que favorecem tarefas do cotidiano escolar como escrever, apagar, manejar cadernos e livros, pintar, recortar, colar. Além do material escolar acessível ou adequado a condição do aluno, podemos criar jogos e atividades pedagógicas acessíveis e que valorizam as habilidades dos alunos.
São exemplos de materiais escolares os engrossadores de lápis e canetas, as tesouras acessíveis, letras imantadas ou emborrachadas para escrita do aluno com deficiência física, entre outros. Vários recursos podem ser feitos com material de baixo custo ou sucatas.
Descrição da figura 1: três fotos de utensílios de auxílio à alimentação e ao preparo de alimentos: 1. Um garfo com faixa em velcro no cabo para fixação da mão. 2. Um prato de comida com anteparo plástico na borda para evitar que a comida caia do prato. 3. um fatiador de pão que fixa o pão para que a ação de cortar aconteça com uma única mão. A faca do fatiador possui uma alça plástica que facilita a preensão.
Figura 1 – Recursos de auxílio à alimentação e ao preparo de alimentos.

Descrição da figura 2: três fotos de utensílios que facilitam o vestuário: 1. Um abotoador confeccionado com uma bola de borracha e um arame que passa pela casa de botões para prender e passar o botão. 2. Uma jaqueta com zíper com uma argola grande na ponta, para facilitar a preensão e o fechamento /abertura. 3. Cadarços em forma de mola elástica que evitam dar o laço.
Descrição da figura 3: seis fotos de materiais escolares que sofreram modificações para facilitar o manejo por alunos com dificuldades físicas: 1. Figura de uma mão com uma órtese em arame revestido em tubo plástico que envolve os dedos indicador e polegar e ao mesmo tempo fixa o lápis durante a escrita. 2. Figura de uma mão escrevendo com um lápis que perpassa o furo de uma borracha em EVA, engrossando o lápis para facilitar a preensão e escrita. Nesta mesma figura, existe uma pulseira imantada no pulso de quem está escrevendo que aderindo a uma base metálica limita seus movimentos involuntários. 3. Uma órtese feita de arame e espuma, revestida de tecido que tem uma caneta acoplada. A figura apresenta outros materiais como um pincel, um giz de cera e um talher que podem ser acoplado a esta órtese. 4. Uma tesoura ajustada com um arame, revestido de um cano de borracha, ligado às duas extremidades onde normalmente ela é segurada. O arame mantém a tesoura sempre aberta e para utilizá-la o aluno deve segurar a alça de arame e executar o movimento de fechar a mão. 5. Figura com lápis, pincel, tubo de cola e trena para pintura que estão revestidos e engrossados com rolos de espuma para que a preensão seja facilitada. 6. Um lápis introduzido em uma bola de borracha, originalmente, utilizada para sucção de leite materno. Esta adequação facilita o aluno a segurar o lápis para escrita e desenho.


Descrição da figura 4: três fotos de materiais pedagógicos: 1. Um painel com figuras variadas impressas em pequenas peças de madeira e cartões com palavras correspondentes às figuras. Tanto as peças de madeira quanto os cartões estão fixados no painel, feito de tecido, por meio de velcro. 2. Uma atividade matemática feita em tabuleiro de cartolina, tendo números e figuras colados dentro de tampinhas de leite, com o objetivo de correlacionar quantidade e número. 3. Um alfabeto móvel, em peças de madeira, forma a palavra BOLA. As peças são fixadas em uma tira de velcro que está colada em uma base feita de papel cartão.


C2. Comunicação Aumentativa e Alternativa – CAA
A CAA10 é destinada a atender pessoas sem fala ou escrita funcional ou com dificuldades entre sua necessidade comunicativa e sua habilidade em falar e/ou escrever.
Os serviços e recursos da CAA são destinados as pessoas de todas as idades e que apresentam distúrbios da comunicação por diferentes causas, como a paralisia cerebral, autismo, deficiência mental, problemas respiratórios, acidentes vasculares cerebrais, traumatismos cranianos, traumatismos medulares, outras doenças neuromotoras, apraxia oral, entre outras. Todos os sinais expressivos do usuário da comunicação alternativa são valorizados e ordenados para o estabelecimento de uma comunicação mais rápida e eficiente possível. Algumas estratégias simples facilitam a comunicação tais como vocalizações, expressão facial, gestos, perguntas objetivas que requerem respostas Sim e Não, apresentação de objetos concretos, fotos ou símbolos para serem escolhidos representando mensagens.
Recursos como as pranchas de comunicação, construídas com os
sistemas de símbolos gráficos (BLISS11, PCS12 e outros), fotografias, recortes de revistas, letras ou palavras escritas, são utilizados pelo usuário da CAA para expressar suas questões, desejos, sentimentos, entendimentos. Estas pranchas de comunicação são individualizadas e construídas para atender a necessidade comunicativa de quem a utiliza.
O formato final de uma prancha de comunicação, além de considerar questões de vocabulário necessário, atende a outras características que correspondem ao formato do recurso, a portabilidade, ao tamanho e quantidade de símbolos, a maneira como este símbolo será indicado (pelo apontamento, pelo olhar, por alguma sinalização do usuário enquanto outra pessoa aponta). Um projeto para criação de um recurso de CAA deve, também, levar em conta as habilidades sensoriais, visuais, cognitivas e motoras do usuário.
Além das pranchas de comunicação individuais, as pranchas temáticas13 podem ser disponibilizadas na escola, servindo a um ou mais usuários. São exemplos as pranchas para escolhas de atividades ou jogos, para o refeitório, para o recreio, prancha da biblioteca, prancha de interpretação de histórias (acompanhando o livro), prancha da sala de música, educação física, entre outras.14
A alta tecnologia dos vocalizadores (pranchas eletrônicas com produção de voz) e dos computadores com softwares específicos garante eficiência à função comunicativa e grande número de vocabulário disponível.15

Descrição da figura 5: três fotos com recursos de comunicação: 1. Uma prancha de comunicação, impressa em papel, apresenta figuras relativas à escolha de brinquedos e de atividades. 2. Um vocalizador apresenta um grupo de 25 símbolos gráficos que ao serem teclados emitem uma mensagem gravada correspondente ao símbolo selecionado. 3. Um vocalizador pequeno, usado no pulso como o relógio, possui quatro botões de mensagens gravadas.



Descrição da figura 6: duas fotos de recursos de comunicação alternativa: 1. Um conjunto de cartões de comunicação, contendo símbolos gráficos estão organizados em um porta símbolos do tipo arquivo. Sobre a mesa alguns símbolos estão dispostos e se referem e escolha de uma atividade escolar que será feita pelo aluno. 2. Nesta foto, está um relato de um passeio que foi feito por meio de escrita com símbolos. Os cartões foram ordenados e colados em uma cartolina para descrever uma atividade realizada.


C3. Recursos de acessibilidade ao computador
O conhecimento e a aplicação da TA permitem que qualquer pessoa, independente de sua condição físico/funcional, tenha, por meio do computador, acesso à informação e a possibilidade de comunicar-se. A interface gráfica e os dispositivos de entrada e saída do computador são ferramentas valiosas que
auxiliam as pessoas com deficiência em suas atividades escolares e de trabalho.
Hardwares e softwares específicos ou adequações simples e de baixo custo possibilitam que uma pessoa com deficiência utilize o computador com autonomia.
Em casos de fraqueza muscular, dificuldades de visão, falta de coordenação motora ou movimentação involuntária ou a impossibilidade de utilizar as mãos que dificultam ou impedem o acesso ao teclado, existem recursos que substituem o teclado convencional por teclados expandidos16 ou reduzidos, colmeias, teclados programáveis e teclados virtuais e com varredura; dependendo da situação do usuário. Da mesma forma, o mouse convencional pode ser substituído por acionadores diversos ou software que controla o computador por comando de voz, entre outros.
Pessoas com cegueira ou com baixa visão podem utilizar dispositivos de saída como os programas de leitores de tela, a impressora Braille, a linha Braille, o software que faz o efeito lupa ou que utiliza cores contrastantes no monitor. Um computador com um software de OCR e síntese de voz instalado, conectado a um escâner e com placa e caixas de som, pode ler textos e livros impressos. Basta colocar o texto impresso no escâner e pressionar um botão para, após alguns segundos, o computador iniciar a leitura. Essa leitura pode ser transformada em arquivo de som tipo MP3, reproduzido em tocadores portáteis. Exemplos de programas que desempenham esta função são o Kurzweil e Open Book. O mercado dispõe, também, do leitor autônomo que é um equipamento, em formato de um escâner, que transforma o texto impresso em voz ou pode ser acessado no display ou linha Braille, promovendo acessibilidade, também, para as pessoas com surdocegueira.
No caso de pessoas com surdez, há softwares que transformam alguns sinais audíveis em informações visuais na tela do computador e sites destinados aos dicionários da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS que apresentam texto e imagem (gráfico, clipes animados e vídeo). Softwares educacionais específicos também foram desenvolvidos para a educação de alunos com surdez.
Para quem utiliza o sistema operacional Windows, cabe referir às opções de acessibilidade nele contidas e que podem ser acessadas no painel de controle do computador. Um teclado virtual com três opções de “formas de acesso” está disponível e com ele é possível produzir o texto apenas batendo em uma tecla (barra de espaço) do teclado.
Sites com programas de TA gratuitos são disponibilizados pela Internet.

Descrição da figura 7: duas fotos de alunos utilizando um teclado especial. 1. Aluno com um teclado grande, sua área de trabalho é programável e também é possível o ajuste de sensibilidade ao toque para que movimentos involuntários sejam filtrados evitando-se erros de digitação. O aluno utiliza uma interface de trabalho para digitação, as letras são grandes e há contraste entre letras pretas e fundo amarelo. 2. Outro aluno, com um teclado com as mesmas características do aluno da primeira foto, trabalha numa interface construída para atividade de matemática com as quatro operações e imagens de blocos de base 10.

Descrição da figura 8 – duas fotos de acessórios que facilitam o acesso ao computador: 1. Uma órtese, feita de arame revestido de espuma e tecido, envolve o pulso do usuário e encaixa em seu dedo polegar. A digitação é realizada por uma ponteira de borracha fixada na órtese. 2. Na segunda foto, está um grupo de acionadores de diferentes formas e tamanhos.


C4. Sistemas de controle de ambiente

Por meio de um controle remoto, as pessoas com limitações motoras, podem ligar, desligar e ajustar aparelhos eletro-eletrônicos como a luz, o som, os televisores, os ventiladores; executar a abertura e fechamento de portas e janelas; receber e fazer chamadas telefônicas; acionar sistemas de segurança, entre outros comandos, localizados em seu quarto, sala, escritório, casa e arredores.

Descrição da figura 9: desenho representativo de uma casa automatizada. Aparece uma pessoa em cadeira de rodas que possui em sua mão um controle remoto. Com este controle, ela é capaz de ativar ou desligar várias ações em sua residência: abrir/fechar janelas e portas, controlar aparelho de som, TV, ventilador, ar condicionado, luzes, telefone.


C5. Projetos arquitetônicos para acessibilidade
Esta modalidade da TA tem por objetivo garantir que os ambientes sejam acessíveis a todos e, para isso, analisa suas condições e propõe um projeto de edificação ou de reforma que atende as diferenças humanas, eliminando as barreiras físicas. Para o desenvolvimento destes projetos arquitetônicos, é preciso um conhecimento das necessidades específicas de cada tipo de deficiência: motora, sensorial, cognitiva ou múltipla.
O Decreto nº 5.296/2004 estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida e a Norma Brasileira Técnica – ABNT NBR9050 estabelece critérios e parâmetros técnicos a serem observados quando do
projeto, construção, instalação e adequação de edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos às condições de acessibilidade.
C6. Órteses e próteses
As próteses são peças artificiais que substituem partes ausentes do corpo. As órteses são recursos colocados junto a um segmento do corpo, garantindo-lhe um melhor posicionamento, estabilização e/ou função.
As próteses e órteses são, geralmente, confeccionadas sob medida e servem no auxílio de mobilidade, de funções manuais (escrita, digitação, utilização de talheres, manejo de objetos para higiene pessoal), correção postural, entre outros.
Descrição da figura 10: usuário desenhando com uma órtese, feita de arame e revestida com tubo de borracha que envolve a sua mão e o dedo polegar. Um lápis de cor está fixado na órtese.


C7. Adequação Postural
Ter uma postura estável e confortável é fundamental para que uma
pessoa consiga um bom desempenho funcional. Fica difícil a realização de qualquer tarefa quando se está inseguro com relação a possíveis quedas ou sentindo desconforto. Desse modo, um projeto de adequação postural diz respeito à seleção de recursos que garantam posturas alinhadas, estáveis e com boa distribuição do peso corporal.
Usuários de cadeiras de rodas, que passam grande parte do dia em uma mesma posição, são atendidos em suas necessidades de conforto e estabilidade quando há a prescrição de sistemas especiais de assentos e encostos que levem em consideração suas medidas, peso e flexibilidade ou alterações musculares e esqueléticas existentes.
Descrição da figura 11: duas fotos que demonstram poltronas posturais colocadas e fixadas sobre uma cadeira convencional de escola. 1.Uma poltrona que possui acessórios de apoio de pés regulável, almofadas para controle e apoio lateral de tronco e pernas, almofada fixada entre as pernas, cinto para estabilização do tronco e apoio de cabeça. 2. Uma criança que possui deficiência física sentada em sua poltrona postural junto a mesa de atividades.

C8. Auxílios de mobilidade
A mobilidade pode ser auxiliada por bengalas, muletas, andadores, carrinhos, cadeiras de rodas manuais ou motorizadas, scooters e qualquer outro veículo, equipamento ou estratégia utilizada na melhoria da mobilidade pessoal.
Descrição da figura 12: três fotos que demonstram modelos de cadeiras de rodas: 1. Cadeira de rodas motorizada. 2. Cadeira de rodas infantil com módulos de assento e de encosto e acessórios para adequação postural. 3. Cadeira de rodas de adulto, com propulsão manual.


C9. Auxílios para pessoas com cegueira ou com baixa visão
O auxílio para pessoas com cegueira ou com baixa visão podem ser encontrados nos equipamentos que visam à independência de seus usuários na realização de tarefas como: consultar o relógio, usar calculadora, verificar a temperatura do corpo, identificar se as luzes estão acesas ou apagadas, cozinhar, identificar cores e peças do vestuário, verificar pressão arterial, identificar chamadas telefônicas, escrever, entre outros. Inclui, também, auxílios ópticos: lentes, lupas e telelupas; softwares leitores de tela, leitores de texto, ampliadores de tela; hardwares como as impressoras Braille, lupas eletrônicas, linha Braille (dispositivo de saída do computador com agulhas táteis) e agendas eletrônicas.
Descrição da figura 13: recursos de tecnologia assistiva utilizados por pessoas com cegueira ou com baixa visão: um termômetro que fala, seis relógios que falam ou possuem pontos táteis para percepção da hora e um teclado que armazena o texto e reproduz em voz.


C10. Auxílios para pessoas com surdez ou com deficiência auditiva
Nesta modalidade, estão incluídos recursos como: as próteses auditivas; equipamentos de amplificação de som via FM; telefones com teclado – teletipo (TTY); sistemas com alerta tátil-visual, sinalizando sons de campainhas; telefones; sirenes; despertador por vibração e telefone celular para recebimento e emissão de texto, entre outros.
C11 Adequações em veículos
As adequações em veículos são visualizadas nos recursos que possibilitam uma pessoa com deficiência física dirigir um automóvel ou que facilitam o embarque e desembarque como elevadores para cadeiras de rodas (utilizados nos carros particulares ou de transporte coletivo). Há, também, exemplos de adequação em veículos em serviços de auto- escola para pessoas com deficiência.
Descrição da figura 14: micro-ônibus com elevador para cadeira de rodas.


Unidade D – TA e interdisciplinaridade


A TA é, por princípio, entendida como o recurso do usuário e não como recurso do profissional ou de alguma área específica de atuação. Esta afirmação se justifica pelo fato de que o recurso de TA serve à pessoa com deficiência, que necessita desempenhar funções do cotidiano de forma mais independente. Isto fica bem claro, quando exemplificamos que os óculos são de quem necessita de ajuda para visão e a bengala é de quem necessita apoio para mobilidade.
Profissionais de diferentes áreas, como a saúde, educação, engenharia, arquitetura, entre outras, podem assessorar na definição de uma tecnologia apropriada ou desenvolver um projeto de alternativas tecnológicas para atender a necessidade do usuário. Desta forma, os serviços e os projetos de TA devem ser concebidos numa perspectiva interdisciplinar.
D1. A equipe
Todo projeto para identificação, formação e utilização de um recurso de TA, realizado em um serviço especializado, envolve diretamente o usuário e tem como base o conhecimento de seu contexto, a valorização de suas intenções e necessidades funcionais pessoais, bem como suas habilidades. A equipe de profissionais contribui com o conhecimento sobre os recursos de TA disponíveis e indicados para cada caso. O usuário da TA e seus familiares são membros integrantes da equipe e todo o projeto de implementação e utilização de recursos deve ser discutido e decidido com eles.
O Center on Disabilities da Califórnia State University Northridge desenvolve formação à distância para profissionais de várias áreas, no trabalho da TA, e revela a importância da equipe interdisciplinar:
Muitos tipos de profissionais e outras pessoas estão envolvidos no processo de avaliação das necessidades individuais de tecnologia assistiva; prescrição, procura, customização, ajustes, ensino de utilização e suporte são necessários para encontrarmos a solução mais adequada a uma determinada pessoa. (CENTER ON DISABILITIES, 2006)

Em seu material de formação, o Center on Disabilities disponibiliza um texto sobre as atribuições dos profissionais e membros da equipe de TA:
Apesar desses profissionais serem formados em disciplinas diferentes, todos são chamados de profissionais da tecnologia assistiva e desenvolvem uma ou mais das seguintes funções:

  • Identificar as pessoas que podem se beneficiar com o uso da tecnologia assistiva.
  • Estabelecer as necessidades, capacidades e benefícios potenciais da tecnologia assistiva.
  •  Selecionar e adquirir sistemas, equipamentos ou recursos apropriados.
  •  Fazer modificações simples no ambiente, equipamentos ou recursos.
  •  Montar um sistema ou recurso de tecnologia assistiva.
  •  Ajustar os recursos e sistemas de tecnologia assistiva.
  •  Selecionar as melhores ajudas para o aprendizado do uso da tecnologia, manuais, fitas ou programas de demonstração de tecnologia assistiva.
  •  Ajustar o recurso ou sistema de tecnologia assistiva ao usuário em particular, incluindo os ajustes iniciais, personalizados e outras modificações.


  •  Orientar e ensinar o usuário para a utilização básica do sistema e como otimizá-lo para si próprio.
  •  Ensinar as pessoas do ambiente, que convivem com o usuário e que necessitam ajudá-lo a manter o equipamento de tecnologia assistiva em funcionamento.
  •  Fornecer orientação e seguimento constante para assegurar-se que o usuário recebe todos os benefícios possíveis, recursos e equipamento de tecnologia assistiva.
  •  Estar preparado para responder perguntas subseqüentes sobre os recursos e sistemas de tecnologia assistiva à medida que forem sendo usados.
  •  Avaliar periodicamente o grau de integração do equipamento de tecnologia assistiva na vida do usuário e fornecer sugestões para implementações posteriores, se necessárias.
  •  Obter retorno dos usuários para refinamento e melhoria dos equipamentos de tecnologia assistiva.
  •  Fornecer assistência a fontes de financiamento para os recursos e sistemas de tecnologia assistiva.
  •  Fornecer um equipamento de tecnologia assistiva mais apropriado e diferente quando o usuário necessitar ou suas capacidades sofrerem modificações.
  • Fornecer treinamento ou referências a consertos e manutenção do equipamento de tecnologia assistiva.
  •  Fornecer um equipamento de tecnologia assistiva mais apropriado sempre que o avanço técnico do mesmo for significante e oferecer maior utilidade. (CENTER ON DISABILITIES, 2006)

É também objetivo da equipe ensinar e habilitar o usuário da tecnologia a utilizar o seu recurso, como no caso de hardwares e softwares de acessibilidade ao computador, recursos de comunicação alternativa, sistema Braille, entre outros.
D2. A TA e o professor de AEE
Na perspectiva da educação inclusiva, a escola comum deve ofertar os recursos e serviços da TA, por meio do AEE que é realizado na sala de recurso multifuncional.
O professor que atua no AEE deve ter formação que o habilite para o desenvolvimento de TA, no espaço escolar. É ele que identifica as barreiras que o aluno com deficiência enfrenta no acesso e participação das atividades escolares e busca as alternativas em TA que eliminam ou minimizam essas barreiras. É também função do professor ensinar seu aluno a utilizar o recurso de forma a desenvolver uma competência operacional e autonomia.
O recurso de TA acompanha o aluno em todos os ambientes que se fizerem necessários (escola, contexto familiar, comunidade). Cabe ao professor do AEE orientar as pessoas envolvidas com o aluno para que tenham conhecimento sobre a função do recurso.
Desta forma, a TA transcende à atuação da saúde/reabilitação, inserindo-se apropriadamente no campo da educação.
O professor do AEE deve trabalhar em uma perspectiva interdisciplinar, realizando interlocução com profissionais de outras áreas de forma a garantir o melhor recurso para o aluno com deficiência.
Unidade E – TA no Brasil
Essa unidade trata da TA no Brasil, a qual se refere a dois enfoques: reabilitação e educação. São ainda apresentadas questões acerca das ofertas de produtos existentes no Brasil.
E1. Reabilitação
O Decreto 3298/99, nos artigos 17 e 18, discorre sobre o direito à reabilitação e situa esta prática a uma abordagem funcional, ou seja, voltada a habilitar funcionalmente o cidadão com deficiência, no sentido de promover a sua inclusão no contexto educacional, laboral e social.
Art. 17. É beneficiária do processo de reabilitação a pessoa que apresenta deficiência, qualquer que seja sua natureza, agente causal ou grau de severidade.
§ 1o Considera-se reabilitação o processo de duração limitada e com objetivo definido, destinado a permitir que a pessoa com deficiência alcance o nível físico, mental ou social funcional ótimo, proporcionando-lhe os meios de modificar sua própria vida, podendo compreender medidas visando a compensar a perda de uma função ou uma limitação funcional e facilitar ajustes ou reajustes sociais.
§ 2o Para efeito do disposto neste artigo, toda pessoa que apresente redução funcional devidamente diagnosticada por equipe multiprofissional terá direito a beneficiar-se dos processos de reabilitação necessários para corrigir ou modificar seu estado físico, mental ou sensorial, quando este constitua obstáculo para sua integração educativa, laboral e social.
Art. 18. Incluem-se na assistência integral à saúde e reabilitação da pessoa portadora de deficiência a concessão de órteses, próteses, bolsas coletoras e materiais auxiliares, dado que tais equipamentos complementam o atendimento, aumentando as possibilidades de independência e inclusão da pessoa portadora de deficiência. (BRASIL, 1999).
O Brasil tem uma legislação avançada e favorável à inclusão de pessoas com deficiência, garantindo acesso a serviços de reabilitação e recursos de TA. No entanto, os cidadãos brasileiros com deficiência, em sua grande maioria, ainda ignoram seus direitos. Além disso, os serviços de reabilitação, quando ofertados, devem ser pautados em estudos e práticas profissionais que tem por base a perspectiva inclusiva, centrados no cidadão, na garantia de seus direitos e no desenvolvimento de vida autônoma e independente.
E2. Educação
Assim como em muitos outros países, o Brasil trabalha pela construção de um sistema educacional inclusivo.
A atual Política Nacional de Educação Especial do Ministério da Educação afirma que a educação inclusiva constitui um paradigma educacional fundamentado na concepção dos direitos humanos. Entre os anos de 1998 e 2006 houve um crescimento de 110,19% do número de matrículas de alunos com deficiência e há uma tendência progressiva de que estas matrículas migrem das escolas especiais e classes especiais para classes comuns do ensino regular. (BRASIL, 2008)
O Censo Escolar de 2008 mostra claramente o momento em que, pela primeira vez em nosso país, o total de matrícula de alunos com deficiência em classes comuns do ensino regular supera a quantidade daqueles que estão, ainda, nas escolas e classes especiais. Atualmente, 53% das matrículas são de alunos da educação especial incluídos em classes comuns do ensino regular.

Não obstante as conquistas relativas ao direito à educação dos alunos com deficiência no Brasil, temos ainda um número muito grande de crianças e jovens que estão fora da escola. Recentemente, o Ministério da Educação e o Ministério do Desenvolvimento Social e Cidadania realizaram o cruzamento de dados do Censo Escolar e dos Beneficiários do Programa Benefício de Prestação Continuada – BPC, de pessoas com deficiência na faixa etária de 0
a 17 anos. Como resultado, constatou-se que 70,47% dos beneficiários estão fora de qualquer escola (comum, especial ou classe especial) e isto representa 239.975 crianças e jovens brasileiros que estão totalmente excluídos do sistema de educação.
Com a finalidade de superar estes dados, foi criado o Programa BPC na Escola que visa uma ação interministerial da Educação, da Assistência Social, da Saúde e dos Direitos Humanos com a finalidade de identificar as barreiras que impedem as crianças e os jovens com deficiência de acessar a escola e de implantar ações que possibilitam as condições necessárias de acessibilidade, participação e escolarização.
As condições necessárias de acessibilidade implicam, diretamente, no estudo e na organização de ações em Tecnologia Assistiva.
Neste sentido, o Ministério da Educação tem investido em formação de professores, aquisição e disponibilização de recursos da TA para as redes públicas de ensino e publicações na área.
E3. Oferta de produtos
O desenvolvimento e a produção de recursos da TA no Brasil é, ainda, muito pequeno, se comparado com a grande demanda, o que o torna dependente de importação. Essa dependência por produtos importados tem como conseqüência produtos de TA de alto custo e, muitas vezes, inacessíveis ao consumidor final.
O Governo Federal tem tomado algumas iniciativas para minimizar essa situação. Em sua Agenda Social, disponibilizou aporte financeiro para a abertura de dez oficinas ortopédicas e para formação de recursos humanos voltados ao desenvolvimento de órteses e próteses e auxílios de mobilidade. A Agenda Social contempla, também, ações vinculadas à acessibilidade no transporte, habitação, trabalho e escolas. Estas ações colaboram para o desenvolvimento da TA no que diz respeito à pesquisa e produção nacional de recursos. Também, o Ministério de Ciência e Tecnologia/FINEP, por meio da
Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social – SECIS, tem lançado editais para o financiamento público de projetos de produtos em TA.
Quanto à oferta de produtos em nosso país, são comercializados recursos de alta qualidade no que diz respeito à órteses, próteses, cadeiras de rodas, acessórios de adequação postural, comunicação aumentativa e alternativa, recursos de informática para pessoas com deficiência física ou com deficiência visual, recursos para pessoa com surdez, entre outros. No entanto, recursos de baixa qualidade e pouca funcionalidade, também, estão no mercado e requerem atenção constante do consumidor para que os investimentos em um determinado recurso não sejam desperdiçados.
Para quem deseja conhecer os produtos disponíveis no Brasil, uma boa referência é acessar o site www.assistiva.org.br do Portal Nacional de Tecnologia Assistiva. Nele, estão listadas as empresas e instituições que fazem pesquisa, desenvolvimento, serviços e comercialização na área de TA. Outra alternativa é a REATECH - Feira Internacional de Tecnologias em Reabilitação, Inclusão e Acessibilidade, que acontece anualmente no estado de São Paulo.40

Unidade F – A TA e a escola


Na escola, a TA constitui um campo de atuação do AEE que organiza e disponibiliza os seus serviços e recursos na sala de recursos multifuncional. Para implementação da TA, no contexto educacional, necessitamos de criatividade e disposição para encontrarmos as alternativas adequadas a cada situação.
Não basta o recurso em si ou um serviço se o aluno com deficiência não estiver inserido nas atividades comuns a todos os alunos. Há que existir o encontro entre a tecnologia e a educação, como afirma Mantoan:
O desenvolvimento de projetos e estudos que resultam em aplicações de natureza reabilitacional são, no geral, centrado em situações locais e tratam de incapacidades específicas. Servem para compensar dificuldades de adaptação, cobrindo déficits de visão, audição, mobilidade, compreensão. Assim sendo, tais aplicações, na maioria das vezes, conseguem reduzir as incapacidades, atenuar os déficits: fazem falar, andar ouvir, ver, aprender. Mas tudo isto só não basta. O que é o falar sem o ensejo e o desejo de nos comunicarmos uns com os outros? O que é o andar se não podemos traçar nossos próprios caminhos, para buscar o que desejamos, para explorar o mundo que nos cerca? O que é o aprender sem uma visão crítica, sem viver a aventura fantástica da construção do conhecimento? E criar, aplicar o que sabemos, sem as amarras dos treinos e dos condicionamentos? Daí a necessidade de um encontro da tecnologia com a educação, entre duas áreas que se propõem a integrar seus propósitos e conhecimentos, buscando complementos uma na outra. (MANTOAN, Mimeo).
A TA só tem significado se o aluno estiver inserido em ambiente inclusivo e o ambiente só é inclusivo quando as pessoas reconhecem e valorizam as diferenças.
Neste sentido, a TA tem como foco o aluno e seu ambiente o que nos leva as seguintes questões: Como identificar a TA apropriada ao aluno? Como obtê-la? Como se dá o processo que vai da identificação da necessidade até a implementação da TA no contexto de vida do aluno?
Zaballa (1995) reflete sobre a subutilização, abandono e falta de conhecimentos dos professores sobre a TA a ser utilizada pelos alunos na escola. Propõe, então, um instrumento denominado SETT que é uma abreviação de STUDENT (aluno), ENVIRONMENT (ambiente), TASK (tarefa) e TOOLS (ferramenta). O SETT considera, em primeiro lugar, o aluno, o
ambiente e as tarefas exigidas para a participação ativa do aluno neste ambiente e, finalmente, define as ferramentas necessárias para o aluno realizar estas tarefas. O autor sugere a seguinte investigação:
O ALUNO:

  •  O que é necessário o aluno fazer?
  •  Quais são as necessidades especiais do aluno?
  • Quais são as habilidades atuais do aluno?

O AMBIENTE:

  •  Que materiais e equipamentos estão atualmente disponíveis no ambiente?
  •  Como é a disposição física?
  •  Existem preocupações especiais?
  • Como é a organização instrucional?
  •  Existe possibilidade de alterações/mudanças?
  •  Que apoios estão disponíveis para o aluno?
  • Que recursos estão disponíveis para as pessoas que apóiam o aluno?

A TAREFA:

  • Que tarefas são realizadas no ambiente?
  • Que atividades fazem parte do currículo do aluno?
  •  Quais os elementos críticos destas atividades?
  • Como as atividades poderão ser modificadas para atender as necessidades especiais do aluno?
  •  Como a tecnologia poderá apoiar a participação ativa do aluno nestas atividades?

AS FERRAMENTAS:

  • Que "não tecnologia", "baixa tecnologia", e opções de "alta tecnologia" devem ser consideradas para o desenvolvimento de um "sistema" para o aluno, que possui estas necessidades e capacidades, que deve realizar estas tarefas, neste ambiente?
  •  Que estratégias podem ser utilizadas para incrementar seu desempenho escolar?
  • Como as ferramentas poderão ser experimentadas com o aluno no ambiente usual em que elas serão utilizadas? (ZABALLA, 1995)

Da mesma forma, algumas etapas podem ser citadas como passos importantes no processo de implementação da TA na escola:
1. Conhecimento do aluno e de suas pretensões funcionais.
2. Avaliação do contexto educacional (objetivos educacionais, ambiente físico, recursos tecnológicos existentes, recursos humanos e conhecimentos). Observação do aluno no ambiente.
3. Avaliação das tarefas. Observação do aluno participando das tarefas propostas ao grupo para sinalização das barreiras existentes que surgem da sua condição física e funcional, da forma como a atividade é organizada, das ferramentas utilizadas para a execução da atividade avaliada, da falta de conhecimento e de utilização de estratégias que favoreçam a participação ativa e autônoma deste aluno.
4. Listar os problemas enfrentados, entender a causa destes problemas e eleger, junto com o aluno, as prioridades de intervenção. Traçar objetivos e resultados esperados.
5. Avaliar o aluno para identificação de suas dificuldades e habilidades pessoais.
6. Encaminhar às avaliações específicas, quando necessário, que indicarão com maior aprofundamento questões relativas ao potencial motor, visual, auditivo, condições de saúde e outros.
7. Com base nos dados coletados selecionar ou construir a Tecnologia Assistiva que será experimentada com o aluno. Ter sempre em mente o objetivo a ser alcançado pela utilização da TA; levar em consideração as necessidades e principalmente as habilidades do aluno, que serão utilizadas e potencializadas com o uso da TA.
8. Experimentar várias alternativas de recursos e estratégias, buscando a definição, junto com o aluno, sobre aquela que corresponde à sua condição e necessidade.
9. Realizar a tomada de decisão sobre a TA apropriada.
10. Implementar a TA no contexto de vida do aluno e seguir com um acompanhamento voltado a formação do aluno e demais pessoas que se beneficiarão da utilizarão da TA (família e escola).
11. Revisar os objetivos e avaliar os resultados.
12. Levantar novas demandas e reiniciar o processo.
Nas etapas de implementação da TA, no âmbito da escola, o professor de AEE tem atuação primordial porque é o responsável pelo plano e execução de AEE que garantem os serviços e recurso da TA.
Os professores da sala de aula comum devem conhecer o trabalho do AEE para que compreendam que existem muitas possibilidades de recursos de acessibilidade que permitem o aluno com deficiência participar das atividades escolares e interagir com o professor e colegas de turma. Por isso, é importante a interlocução do professor do AEE com o professor da sala de aula para que discutam as necessidades do aluno e os objetivos educacionais a serem atingidos. Ao professor da sala de aula comum cabe a escolarização que é comum a todos os alunos, ao professor do AEE cabe prover as condições de acesso à escolarização.
Implementar a TA na escola significa, então, identificar e construir uma rede de parcerias com ações integradas que envolvam os profissionais da educação com os profissionais da saúde, assistência social, engenharia e arquitetura; as instituições especializadas; as universidades e instituições que trabalham com pesquisa e desenvolvimento tecnológico que qualificam o serviço de TA no campo educacional.


REFERÊNCIAS
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BRASIL. Decreto 5296 de 02 de dezembro de 2004. Disponível em http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=240147 Acessado em 16 jun. 2007.
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Inclusão: revista da educação especial, v. 4, n 1, janeiro/junho 2008. Brasília: MEC/SEESP, 2008.
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JOHNSON, Roxanna. Guia dos Símbolos de Comunicação Pictórica. Porto Alegre: Clik, 1998.
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ZABALA, Joy. Student, Environment, Task and Tools – SEET, 2006. Disponível em: http://sweb.uky.edu/~jszaba0/JoyZabala.html Acesso 02/11/08.

ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO (AEE)

MÓDULO II - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO (AEE)
Professoras: Marcia Doralina Alves
Taís Guareschi
Carga horária: 15 horas

UNIDADE A – Compreendendo o Atendimento Educacional Especializado (AEE)


A.1- O que é o Atendimento Educacional Especializado?


Por muito tempo a Educação Especial organizou seus serviços de forma substitutiva ao ensino comum, ou seja, atuou como um sistema paralelo de ensino. A atual Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva, de janeiro de 2008, reafirma o direito de todos os alunos à educação no ensino regular, recebendo, quando necessário, o Atendimento Educacional Especializado.
No final da década de 80, surge o movimento de inclusão, tendo como base o princípio de igualdade de oportunidades nos sistemas sociais, incluindo a instituição escolar. Esse movimento mundial tem como preceitos o direito de todos os alunos frequentarem a escola regular e a valorização da diversidade, de forma que as diferenças passem a ser parte do estatuto da instituição e todas as formas de construção de aprendizagem sejam consideradas no espaço escolar.
Tratando-se de documentos legais, a Constituição Federal de 1988 assegura o princípio de igualdade, garantindo, em seu Artigo 206, Inciso I, que “o ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”. Outros documentos nacionais e internacionais asseguram também o princípio de igualdade e o direito de as pessoas com necessidades educacionais especiais frequentarem o ensino regular. Na Unidade B deste módulo, trataremos dos marcos legais nacionais e internacionais relevantes para compreendermos o conceito de Atendimento Educacional Especializado.
A Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva, define a Educação Especial da seguinte forma:
A educação especial é uma modalidade de ensino que perpassa todos os níveis, etapas e modalidades, realiza o atendimento educacional especializado, disponibiliza os recursos e serviços e orienta quanto a sua utilização no processo de ensino e aprendizagem comum do ensino regular (Secretaria de Educação Especial, 2008, p.15).
Esse fragmento do texto da Política Nacional evidencia alguns pontos que devem ser destacados. O primeiro deles é que a Educação Especial é uma modalidade de ensino e não um sistema substitutivo de ensino. Portanto, a Educação Especial não deve ser substitutiva ao ensino regular e, sim, complementar e/ou suplementar. Sendo oferecida de forma substitutiva, ela é incompatível com o princípio de igualdade referido acima, porém, sendo ofertada de forma complementar e/ou suplementar, a educação especial não impede que o aluno frequente o ensino regular. Em termos mais simples, quer dizer que não deve haver sistemas paralelos de ensino especial, como, por exemplo, escolas especiais com séries ou anos funcionando conforme o ensino regular, mas se destinando exclusivamente ao ensino de alunos com necessidades educacionais especiais.
Outro ponto que merece destaque é a transversalidade da Educação Especial. Quando o texto nos diz que essa modalidade de ensino perpassa os demais níveis, ele está evidenciando a transversalidade. Dessa forma, a educação especial atua de forma complementar ou suplementar ao sistema regular de ensino, tanto na Educação Básica (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio) quanto no Ensino Superior. Essa transversalidade pode ser representada pela figura abaixo:



Por fim, podemos destacar como ponto relevante do fragmento acima que a Educação Especial é a modalidade de ensino que realiza o Atendimento Educacional Especializado (AEE). Antes de tratarmos especificamente do AEE, pensamos ser importante saber quais alunos são público da Educação Especial e, portanto, têm direito a receber o atendimento complementar e/ou suplementar.
Quem é o público-alvo do Atendimento Educacional Especializado?
A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (de janeiro de 2008), afirma que a Educação Especial deve oferecer o Atendimento Educacional Especializado às necessidades educacionais especiais dos alunos com: deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação.
Nas Diretrizes Operacionais da Educação Especial para o Atendimento Educacional Especializado na Educação Básica, instituídas com base na Constituição Federal de 1988; na Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva de janeiro de 2008; no Decreto Legislativo nº 186 de julho de 2008 e no Decreto nº 6.571 de 18 de setembro de 2008, que
dispõe sobre o AEE, consta o seguinte acerca do público-alvo desse atendimento1:
1- Alunos com Deficiência: “aqueles que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, intelectual, mental ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas” (p.2). Portanto, são os alunos com deficiência mental, deficiência física, surdez, deficiência auditiva, cegueira, baixa visão, surdocegueira ou deficiência múltipla.
2- Alunos com Transtornos Globais do Desenvolvimento: “aqueles que apresentam um quadro de alterações no desenvolvimento neuropsicomotor, comprometimento nas relações sociais, na comunicação ou estereotipias motoras. Incluem-se nessa definição alunos com autismo clássico, síndrome de Asperger, síndrome de Rett, transtorno desintegrativo da infância (psicoses) e transtornos invasivos em outra especificação” (p.2).
3- Alunos com altas habilidades/superdotação: “aqueles que apresentam um potencial elevado e grande envolvimento com as áreas do conhecimento humano, isoladas ou combinadas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotora, artes e criatividade” (p.2).
Podemos perceber através dessas definições que as políticas nacionais de Educação Especial deixam claro quais alunos serão atendidos por essa modalidade de ensino.
Agora que já sabemos quem são os alunos público-alvo da educação especial podemos adentrar no conceito de Atendimento Educacional Especializado.


Como a Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva define o conceito de AEE?


A Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva define o Atendimento Educacional Especializado:
O atendimento educacional especializado tem como função identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem as barreiras para a plena participação dos alunos, considerando suas necessidades específicas. As atividades desenvolvidas no atendimento educacional especializado diferenciam-se daquelas realizadas na sala de aula comum, não sendo substitutivas à escolarização. Esse atendimento complementa e/ou suplementa a formação dos alunos com vistas à autonomia e independência na escola e fora dela (Secretaria de Educação Especial, 2008, p.15).
Com base nessa definição, podemos perceber que o AEE é o atendimento oferecido aos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento ou altas habilidades/superdotação, de forma complementar e/ou suplementar ao ensino regular, considerando as necessidades desses alunos. Então, o professor do AEE, dependendo da necessidade de seu aluno, irá organizar atividades e recursos pedagógicos e de acessibilidade a fim de facilitar o processo de construção de aprendizagem do sujeito É importante salientar, ainda, que as atividades oferecidas pelo AEE não se configura como reforço escolar, uma vez que se diferencia daquelas realizadas na sala de aula do ensino comum, como refere a citação acima. O professor deverá de forma criativa e inovadora buscar atividades e recursos que estimulem o aprendizado do aluno naquelas áreas em que ele encontra maiores dificuldades.
Para compreendermos o que são as atividades e recursos do AEE trazemos alguns exemplos:

- Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS: “é uma língua visual-espacial articulada através das mãos, das expressões faciais e do corpo. É uma língua natural usada pela comunidade surda brasileira” (QUADROS, 2007, p.19);
- Código Braille: “código ou meio de leitura e escrita das pessoas cegas. Baseia-se na combinação de 63 pontos que representam as letras do alfabeto, os números e outros símbolos gráficos” (SÁ; CAMPOS; SILVA, 2007, p.22);
- Comunicação aumentativa/alternativa: é “um conjunto de procedimentos técnicos e metodológicos direcionado a pessoas acometidas por alguma doença, deficiência ou alguma outra situação momentânea que impede a comunicação com as demais pessoas por meio dos recursos usualmente utilizados, mais especificamente a fala”. É bom lembrar que a comunicação aumentativa/alternativa não substitui a fala, mas contribui para que a comunicação ocorra (MANZINI; DELIBERATO, 2006, p.4);
- Ensino da língua portuguesa para surdos: a língua portuguesa (leitura e escrita) é a segunda língua para os surdos, sendo que a Língua Brasileira de Sinais é a primeira língua;
- Uso do sorobã: “instrumento utilizado para trabalhar cálculos e operações matemáticas; espécie de ábaco que contém cinco contas em cada eixo e borracha compressora para deixar as contas fixas” (SÁ; CAMPOS; SILVA, 2007, p.22);
-Enriquecimento curricular;
- Produção e adaptação de materiais didáticos e pedagógicos;
- Atividades da vida autônoma.
Esses são alguns exemplos de atividades/recursos que podem ser utilizados no AEE. Evidentemente, o trabalho do professor dependerá da necessidade de seu aluno, conforme dito anteriormente. O professor terá que pensar, caso a caso, qual a melhor forma de trabalhar com o aluno, quais os recursos a serem utilizados para que a construção de sua aprendizagem seja levada a termo. Isso se revelará na singularidade de cada sujeito, no estilo de cognitivo de cada aluno2. O importante é o investimento que deve haver tanto do professor do AEE quanto do professor do ensino regular, apostando que todos aprendemos, independentemente das incapacidades que possamos supostamente possuir. Portanto, todos os alunos aprendem, e o professor disponibilizará recursos e estratégias pedagógicas para que seu aprendizado seja facilitado.
A fim de clarificar em que consiste o AEE, nós nos reportaremos aos objetivos desse atendimento que constam no Artigo 2º do Decreto 6.571 de 17 de setembro de 2008:
I- prover condições de acesso, participação e aprendizagem no ensino regular aos alunos referidos no Artigo 1º3;
II- garantir a transversalidade das ações da educação especial no ensino regular;
III- fomentar o desenvolvimento de recursos didáticos e pedagógicos que eliminem as barreiras no processo de ensino e aprendizagem; e
IV- assegurar condições para a continuidade de estudos nos demais níveis de ensino.
Considerando os princípios até aqui apresentados de que o AEE é complementar e/ou suplementar ao ensino regular e que é, em sua essência, diferenciado desse último, uma vez que não se constitui como reforço escolar, apresentamos uma forma interessante de compreensão desse atendimento:
O Atendimento Educacional Especializado funciona nos moldes similares a outros cursos que complementam os conhecimentos adquiridos nos níveis de ensino básico e

superior, como é o caso dos cursos de línguas, artes, informática e outros. Portanto, esse Atendimento não substitui a escola comum para pessoas em idade de acesso obrigatório ao Ensino Fundamental (dos 7 aos 14 anos) e será preferencialmente oferecido nas escolas comuns do ensino regular. Diferente de outros cursos livres, o Atendimento Educacional Especializado é tão importante que é garantido na Constituição Federal (FÁVERO; PANTOJA; MANTOAN, 2007, p.27).
Dessa forma, o AEE, segundo a ilustração das autoras acima, é complementar, no entanto, é tão importante que, diferentemente de outros cursos complementares, é garantido por lei.
É significativo salientarmos aqui que o AEE é garantido por lei, porém ele não é obrigatório. Não sendo obrigatório, o aluno com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação e sua família poderão optar ou não pelo atendimento. Portanto, o AEE não deve ser “adotado de forma obrigatória ou como condição para o acesso ao ensino comum” (FÁVERO, 2007, p. 20).
O Atendimento Educacional Especializado deve ser oferecido no turno inverso ao do ensino regular para que o aluno não tenha dificultado ou impedido seu acesso ao ensino comum. Esse atendimento deve ser realizado, preferencialmente, na Sala de Recursos Multifuncionais da própria escola ou, caso a escola não tenha a sala e o professor especializado em AEE, pode ser realizado em outra escola do ensino regular ou, ainda, em Centros Educacionais Especializados. Esses centros deverão oferecer o AEE e proporcionar ações para o pleno desenvolvimento das potencialidades sociais, afetivas e intelectuais dos educandos, valorizando e respeitando a diversidade no contexto da educação inclusiva. As escolas especiais, por exemplo, podem se transformar em centros de atendimento educacional especializados. Conforme Mantoan (2008) as escolas especiais deverão redimensionar seu trabalho uma vez que o ensino especial não é mais substitutivo do ensino regular. Afirma a autora:
Esses novos rumos podem levar essas escolas a se transformarem em centros de atendimento educacional especializado – AEE. Essa transformação, no entanto terá caráter temporário, provisório, porque a tendência é alocar, gradativamente, o AEE nas escolas comuns, como é prescrito nos textos legais referentes à educação em geral e à educação especial (p.29).
É importante que o AEE esteja articulado com as propostas pedagógicas do ensino comum, tendo em vista a relevância desse atendimento que atua de forma complementar e/ou suplementar ao ensino regular. Dessa forma, o AEE deve constar no Projeto Político Pedagógico da escola, sendo uma ação de toda a comunidade escolar e não uma ação isolada do professor especializado. É sempre bom salientar a importância da articulação do trabalho do professor do ensino regular e do professor do AEE, tendo em vista que ambos trabalham com o mesmo aluno.
Com base nos pressupostos apresentados, é interessante observarmos como se dará a organização do AEE. As Diretrizes Operacionais da Educação Especial para o Atendimento Educacional Especializado – AEE (2008) na Educação Básica discorrem acerca dessa organização:
a. Sala de recursos multifuncional: espaço físico, mobiliários, materiais didáticos, recursos pedagógicos e de acessibilidade e equipamentos específicos;
b. Matrícula dos alunos no AEE: condicionada à matrícula no ensino regular da própria escola ou de outra escola;
c. Plano do AEE: identificação das necessidades educacionais específicas dos alunos, definição dos recursos necessários e das atividades a serem desenvolvidas, cronograma de atendimento dos alunos;
d. Professor para o exercício do AEE;
e. Profissionais da educação: tradutor e intérprete da Língua Brasileira de Sinais, guia-intérprete e outros que atuam no apoio às atividades de alimentação, higiene e locomoção;
f. Articulação entre professores do AEE e os do ensino comum;
g. Redes de apoio: no âmbito da atuação intersetorial, da formação docente, do acesso a recursos, serviços e equipamentos, entre outros que contribuam para a realização do AEE.
Dessa forma, no que se refere à organização do Atendimento Educacional Especializado na escola, esse atendimento deverá ser oferecido na Sala de Recursos Multifuncionais (trataremos sobre essa sala no item A.2) que é o espaço físico com recursos e materiais onde o professor do AEE trabalhará com alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. Esses alunos devem estar matriculados no ensino regular da escola ou de outra escola regular, frequentando o AEE em turno inverso.
A escola deverá ter um plano de AEE para a identificação das necessidades educacionais especiais dos alunos e para a definição dos recursos e atividades que serão desenvolvidas tendo em vista as especificidades dos alunos. Além do professor do AEE, a escola também poderá contar com outros profissionais da educação como, por exemplo, um tradutor e intérprete de Língua Brasileira de Sinais para alunos com surdez ou um profissional que auxilie os alunos que necessitem na alimentação, higiene e locomoção.
Por fim, podemos enfatizar, em relação à organização do AEE, a importância das redes de apoio:
• a importância da articulação entre o professor do ensino regular e do Atendimento Educacional Especializado, uma vez que o professor do AEE, além de trabalhar com o aluno na sala de recursos, dará o apoio necessário ao professor do ensino regular que possui em sua sala um aluno incluído.
• as parcerias que a escola pode buscar para a realização do AEE. Parcerias com a Secretaria de Educação, Secretaria da Saúde que apoiem o trabalho da escola. Esse apoio poderá se dar através de palestras, assessorias ou cursos, para formação docente, considerando as demandas da escola. Com relação às parcerias, gostaríamos de enfatizar que o professor é parte atuante da equipe interdisciplinar, de forma que, além de receber apoio, esse profissional oferecerá subsídios acerca da prática pedagógica com base em seus saberes a respeito da aprendizagem e da realidade escolar.
• buscar recursos e serviços necessários para garantir a qualidade de ensino para os alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação.
Depois de discorrermos acerca da organização do AEE, pensamos ser importante tratar do financiamento desse atendimento.
De acordo com as Diretrizes Operacionais da Educação Especial para o Atendimento Educacional Especializado – AEE na Educação Básica, os alunos público-alvo da educação especial que estiverem matriculados no ensino regular e matriculados também no Atendimento Educacional Especializado serão contados duplamente no Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação - FUNDEB, ou seja, receberão os recursos em dobro, tendo em vista as duas matrículas. Esses recursos serão distribuídos de acordo com os registros no Censo Escolar MEC/INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) do ano anterior. Assim, um aluno com deficiência mental, por exemplo, que estiver registrado no Censo Escolar com matrícula no ensino regular e também no atendimento educacional especializado, é contabilizado duplamente no FUNDEB no ano seguinte.
Para maiores informações sobre o FUNDEB acesse: http://www.fnde.gov.br/home/index.jsp?arquivo=fundeb.html
Por fim, que formação o professor do AEE deve possuir? Quais suas atribuições?
De acordo com as Diretrizes Operacionais da Educação Especial para o Atendimento Educacional Especializado – AEE na Educação Básica, para o
professor atuar no AEE, ele “deve ter formação inicial que o habilite para o exercício da docência e formação específica na educação especial, inicial ou continuada” (p.4).
As diretrizes estabelecem, ainda, as atribuições do professor do AEE. Esse professor deve organizar o Atendimento Educacional Especializado na Sala de Recursos Multifuncionais, estabelecendo o tipo e o número de atendimentos e também os recursos pedagógicos e de acessibilidade que serão utilizados de acordo com as necessidades educacionais especiais dos alunos. Para isso o professor deverá elaborar e realizar o Plano do AEE, citado anteriormente (quando tratamos da organização do AEE), sempre considerando a sua realidade escolar e os alunos atendidos pela Educação Especial.
Além de organizar o atendimento na Sala de Recursos Multifuncionais, o professor deverá orientar os demais colegas do ensino regular que trabalham com os alunos que frequentam o AEE. Deverá também nortear e acompanhar os recursos pedagógicos e de acessibilidade utilizados pelo aluno nos demais espaços escolares. Evidencia-se aqui um ponto tratado anteriormente que é a articulação do professor do AEE com os professores do ensino regular.
No contexto do AEE, cabe ao professor ensinar e também utilizar os recursos de Tecnologia Assistiva (TA). As Tecnologias Assistivas “são recursos desenvolvidos e disponibilizados às pessoas com deficiência e que visam a ampliar suas habilidades no desempenho das funções pretendidas” (BERSCH; PELOSI, 2007, p. 8). São recursos que visam à autonomia e à independência funcional de seus usuários. Dentre esses podemos citar: a comunicação alternativa e aumentativa, sorobã, recursos ópticos e não ópticos, códigos e linguagens, etc.
Finalmente, o professor do AEE deve formar parcerias com as áreas intersetoriais e promover a articulação com os serviços da saúde, assistência social, etc., buscando na interdisciplinaridade do trabalho desenvolvido o apoio necessário para pensar o trabalho educativo.
Em seu trabalho, o professor do AEE fará a avaliação pedagógica dos alunos para estabelecer as estratégias e os recursos mais apropriados para
cada caso, tendo em vista a necessidade específica de cada sujeito. Um aspecto importante a ser considerado na avaliação do professor e que vai além das questões relativas à aprendizagem, é a história familiar e escolar do aluno. É necessário que o professor colete dados sobre a vida desse aluno através de entrevistas familiares, buscando o máximo de informações sobre ele, enfatizando os progressos escolares, seus relacionamentos na esfera social e sua circulação na dinâmica familiar. A história escolar desse aluno poderá ser pesquisada através dos registros no histórico escolar, pareceres pedagógicos e também em conversas, quando possível, com os professores anteriores e o atual do aluno. Vale lembrar, que com relação à organização do universo escolar do aluno, a evolução de suas competências e conhecimentos deverá ter destaque. É importante, também, que o professor entre em contato com outros profissionais, como psicólogo, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, quando o aluno tiver esses atendimentos.
É através da avaliação da aprendizagem, da história familiar; da história escolar e da interlocução com outros profissionais que atendem o aluno que o professor do AEE verificará aquilo que ele já construiu em termos de aprendizado em todas essas esferas. Após, o professor direcionará seu trabalho na Sala de Recursos Multifuncionais, oferecendo o apoio necessário à família e aos professores do ensino regular. É um trabalho pautado na capacidade de aprender do aluno, tirando o foco de atenção de suas supostas e tantas vezes imaginárias impossibilidades, enfatizando sempre suas condições de acesso à aprendizagem.
Esse olhar diferenciado sobre o aluno, vendo-o como sujeito capaz de aprender e com singularidades é fundamental. Afinal, só poderemos investir na aprendizagem de um sujeito quando acreditarmos nas suas potencialidades, desejando que essas aflorem e se tornem aliadas desse sujeito na busca de um estilo próprio para estar no mundo. Esse olhar possibilita ao aluno sair de um possível lugar de não saber para um lugar de sujeito em processo de aprendizagem, tanto na vida quanto na escola.
Tendo em vista esse outro lugar que o sujeito poderá ocupar, exemplificaremos a seguir o caso de um aluno que, com 12 anos, na 2ª série, ainda não lê nem escreve. Esse exemplo evidencia que a escola muitas vezes dá tanta ênfase à aquisição da escrita que os professores acabam reduzindo a enorme capacidade de aprender dos alunos às habilidades de ler e escrever.
Fernando4, um aluno com diagnóstico de deficiência mental, reprovado inúmeras vezes e um aluno do qual a professora havia “desistido”, apresentava uma expressão de cansaço quando se tratava de atividades que envolviam a escrita. Seu desconforto era tanto que a realização das atividades era acompanhada de profundos suspiros. Na sala de aula ele sentava na última classe e lá permanecia sem participar de praticamente nenhuma atividade, exceto as que envolviam desenho. Seu nome não aparecia sequer na lista de orações que os alunos realizavam, um a cada dia, para dar início à aula. Os nomes constavam em ordem alfabética e Fernando, com sua dificuldade na fala e na aprendizagem, foi excluído da lista.
O que fazia com que Fernando ainda fosse para a escola? Supomos que não há outra explicação senão o desejo de aprender.
Frequentando a Sala de Recursos Multifuncionais, um olhar diferente e uma aposta foram endereçados a Fernando pelo professor do AEE. Dizia a professora: “Fernando gosta mesmo é de matemática! Então, porque não valorizar sua facilidade com os números?” Trabalharam-se histórias matemáticas e atividades com cálculos. O trabalho com a multiplicação teve início e a calculadora foi introduzida. Os progressos foram visíveis e Fernando foi aprovado para a 3ª série. Fernando agora frequenta o ensino regular, tem uma aparência feliz e se expressa de forma mais compreensível, passando a se interessar pela leitura e descoberta dos enigmas das histórias matemáticas.
Nesse breve relato de caso foi possível visualizar melhor a dimensão e a relevância do trabalho do professor do AEE quando este consegue dar um lugar

de sujeito para o aluno, independentemente das suas dificuldades. Para isso, é necessário que um investimento seja feito, a fim de que o aluno, percebendo o desejo do professor com relação às suas questões, possa voltar a se interessar pelo aprendizado e pelo universo da escola.

Resumindo...


- O AEE não é substitutivo do ensino regular e, sim, complementar e/ou suplementar;
- O AEE destina-se a alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação;
- O AEE deve ser oferecido preferencialmente na mesma escola em que o aluno frequenta o ensino regular, em turno inverso para não dificultar ou impossibilitar a frequência à sala de aula comum;
- O AEE deve constar no Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola de ensino regular. O PPP deverá refletir a pluralidade de ações que envolvem o ato educativo em que TODOS são capazes de aprender, embora com ritmos e estilos de aprendizagem diferentes.

A.2- A Sala de Recursos Multifuncionais


O Decreto nº 6.571, de 17 de setembro de 2008, define a Sala de Recursos Multifuncionais no Artigo 3º, Parágrafo 1º: “As salas de recursos multifuncionais são ambientes dotados de equipamentos, mobiliários e materiais didáticos e pedagógicos para a oferta do atendimento educacional especializado”. Portanto, a Sala de Recursos Multifuncional é o espaço físico da escola onde será ofertado o Atendimento Educacional Especializado.
A denominação Sala de Recursos Multifuncionais se deve ao fato de esse espaço destinar-se a diferentes necessidades educacionais especiais. Dessa forma, a sala de recursos dispõe de materiais pedagógicos e equipamentos que visam complementar e/ou suplementar o ensino regular de alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, facilitando a aprendizagem desses sujeitos.
O professor do AEE utilizará esse espaço para trabalhar em turno inverso ao do ensino regular de acordo com a necessidade específica de cada aluno. No trabalho com um aluno com paralisia cerebral com comprometimento na fala e motor, por exemplo, poderá ser trabalhada a comunicação aumentativa e alternativa e o professor estabelecerá quais adaptações serão necessárias para que esse aluno possa construir seu aprendizado. Evidentemente, essa é apenas uma ilustração, pois nem todos os alunos com paralisia cerebral precisarão dessas adaptações e recursos citados. O professor, conhecendo os recursos pedagógicos e de acessibilidade, pensará caso a caso quais estratégias utilizará.
A sala de recursos é um espaço também de avaliação pedagógica, de forma que o professor do AEE avalia quais as possibilidades desse aluno e quais os recursos a serem utilizados, caso o aluno precise do Atendimento Educacional Especializado. O atendimento será organizado na Sala de Recursos Multifuncionais de acordo com o planejamento do professor que organizará o cronograma de atendimentos. Esses atendimentos podem ser individuais ou em pequenos grupos, dependendo dos objetivos do trabalho. Há alunos que se beneficiarão de um trabalho mais individualizado em razão das suas dificuldades; outros poderão trabalhar em grupo e com isso socializar a aprendizagem.
Para concluir o item acerca da Sala de Recursos Multifuncionais, queremos destacar a importância desse espaço de AEE, uma vez que essa oferta de trabalho é algo que vai além de uma garantia de acesso à escola dos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. O AEE poderá ser um lugar onde esse aluno falará de si e das suas especificidades enquanto sujeito em constante processo de aprendizagem.
Programa de Implantação de Sala de Recursos Multifuncionais: é um programa do Ministério da Educação (MEC) que apoia a implantação da Sala de Recursos Multifuncionais com equipamentos, mobiliários e materiais didático-pedagógicos e de acessibilidade para atender às necessidades educacionais especiais de alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. Essas salas são destinadas a escolas das redes estaduais e municipais em que haja esses alunos registrados no Censo Escolar MEC/INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais). A Secretaria de Educação Especial (SEESP) destina as Sala de Recursos Multifuncionais de acordo com as demandas apresentadas pelas secretarias de educação em cada Plano de Ações Articuladas (PAR). Maiores informações sobre essas questões, acesse o site: www.mec.gov.br.


UNIDADE B – Marcos Legais


Esta Unidade tem como objetivo delinear a forma como as políticas públicas foram sendo pensadas e construídas em direção à educação inclusiva. Para tanto, trataremos de marcos legais nacionais e também internacionais que asseguram o direito de igualdade, garantindo que todos os alunos devem frequentar o sistema regular de ensino.
É importante conhecermos esses marcos legais para compreendermos melhor a atual Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva que afirma ser a Educação Especial a responsável pela oferta do Atendimento Educacional Especializado, tema deste módulo.
Iniciaremos pela Constituição Federal de 1988 que assegura o princípio de igualdade. Em seguida, discorreremos acerca dos seguintes documentos internacionais: Declaração Mundial de Educação para Todos e a Declaração de Salamanca. Após, trataremos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 (LDBEN). Também falaremos da Convenção de Guatemala e da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Para concluir, abordaremos a Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva de janeiro de 2008, o Decreto nº 186 de Julho de 2008, o Decreto nº 6.571 de 17 de Setembro de 2008 e as Diretrizes Operacionais da Educação Especial para o Atendimento Educacional Especializado – AEE na Educação Básica.

B.1 - A Constituição Federal (1988)


A Constituição Federal (CF) de 1988 assegura que é objetivo da República Federativa do Brasil “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (Artigo 3º, Inciso IV). Em seu Artigo 5º, a Constituição garante o princípio de igualdade:
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (...).
Além disso, a CF garante em seu Artigo 205 que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família. Em seguida, no Artigo 206, estabelece a igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. O Atendimento Educacional Especializado, oferecido preferencialmente na rede regular de ensino, também é garantido na CF (Artigo 208, Inciso III).
Portanto, a Constituição Federal garante a todos os alunos a frequencia no ensino regular, com base no princípio de igualdade, assegurando ainda o direito ao Atendimento Educacional Especializado. Assim, todo aluno tem direito de estar matriculado no ensino regular e a escola tem o dever de matricular todos os alunos, não devendo discriminar qualquer pessoa em razão de uma deficiência ou sob outro pretexto.

B.2 - A Declaração Mundial de Educação para Todos – 1990


A Declaração Mundial de Educação para Todos foi aprovada em Jomtien, Tailândia, em 1990. Essa declaração tem como objetivo garantir o atendimento às necessidades básicas da aprendizagem de todas as crianças, jovens e adultos.
Em seu Artigo 3º a Declaração trata da universalização do acesso à educação e do princípio de equidade. Especificamente em relação à educação dos alunos com deficiência, o documento diz:
As necessidades básicas de aprendizagem das pessoas portadoras de deficiências requerem atenção especial. É preciso tomar medidas que garantam a igualdade de acesso à educação aos portadores de todo e qualquer tipo de deficiência, como parte integrante do sistema educativo (p.4).

Assim, essa Declaração afirma o direito de todas as pessoas à educação, assegurando a igualdade de acesso às pessoas com deficiência.

B.3 - A Declaração de Salamanca - 1994


A Declaração de Salamanca trata dos “Princípios, Políticas e Práticas na Área das Necessidades Educativas Especiais”, sendo que, reafirmando o compromisso para com a Educação para Todos, reconhece a necessidade e a importância de oferecer educação de qualidade para todos os alunos com necessidades educacionais especiais no sistema de ensino regular.
O princípio orientador da estrutura de ação em Educação Especial dessa política é o de que as escolas:
deveriam acomodar todas as crianças independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, lingüísticas ou outras. Aquelas deveriam incluir crianças deficientes e super-dotadas, crianças de rua e que trabalham, crianças de origem remota ou de população nômade, crianças pertencentes a minorias lingüísticas, étnicas ou culturais, e crianças de outros grupos desavantajados ou marginalizados. Tais condições geram uma variedade de diferentes desafios aos sistemas escolares. (...) Escolas devem buscar formas de educar tais crianças bem-sucedidamente, incluindo aquelas que possuam desvantagens severas. Existe um consenso emergente de que crianças e jovens com necessidades educacionais especiais devam ser incluídas em arranjos educacionais feitos para a maioria das crianças. Isto levou ao conceito de escola inclusiva.
Conforme podemos perceber, a Declaração de Salamanca, evidencia no princípio orientador o desafio da educação inclusiva lançado às escolas, no intuito de que devem acolher e ensinar a todos os alunos.
Apresentamos abaixo mais um fragmento dessa Declaração, fragmento esse que trata da educação inclusiva e da diversidade:
• toda criança tem direito fundamental à educação, e deve ser dada a oportunidade de atingir e manter o nível adequado de aprendizagem,
• toda criança possui características, interesses, habilidades e necessidades de aprendizagem que são únicas,
• sistemas educacionais deveriam ser designados e programas educacionais deveriam ser implementados no sentido de se levar em conta a vasta diversidade de tais características e necessidades,
• aqueles com necessidades educacionais especiais devem ter acesso à escola regular, que deveria acomodá-los dentro de uma Pedagogia centrada na criança, capaz de satisfazer a tais necessidades,
• escolas regulares que possuam tal orientação inclusiva constituem os meios mais eficazes de combater atitudes discriminatórias criando-se comunidades acolhedoras, construindo uma sociedade inclusiva e alcançando educação para todos; além disso, tais escolas provêem uma educação efetiva à maioria das crianças e aprimoram a eficiência e, em última instância, o custo da eficácia de todo o sistema educacional.
Esse fragmento afirma o direito de toda criança à educação no ensino regular e pontua uma questão que consideramos fundamental na perspectiva da educação inclusiva: todo aluno “possui características, interesses, habilidades e necessidades de aprendizagem que são únicas”. Trata-se do estilo de aprendizagem que é singular, é particular. A escola, com uma pedagogia centrada na criança, como refere o documento, deve considerar e valorizar essa singularidade da aprendizagem, ou seja, o jeito de aprender de cada aluno como uma forma de esse sujeito se apresentar no espaço escolar.
Portanto, esse documento, assim como a Declaração Mundial de Educação para Todos, influenciou a elaboração de políticas públicas, visando à educação inclusiva.

B.4 - A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) – Lei 9.394 de 20 de Dezembro de 1996


A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 20 de dezembro de 1996 define e regulamenta o sistema nacional de educação, sendo fundamentada nos princípios da Constituição Federal (1988).
Essa lei assegura em seu Artigo 4º, Inciso I, o “ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria”. Portanto, o direito à educação no ensino regular é assegurado a todos, sendo a frequencia ao ensino fundamental obrigatória.
No que tange à Educação Especial, é importante destacar que a LDBEN garante, em seu Artigo 59, que os sistemas de ensino assegurarão aos alunos com necessidades especiais:
I - currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para atender às suas necessidades;
II - terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados;
A LDBEN garante, ainda, a “possibilidade de avanço nos cursos e nas séries mediante verificação do aprendizado” (Artigo 24, Inciso V, “c”). Essa é mais uma premissa do documento ao reafirmar o direito de todos à educação, levando em conta a diversidade, uma vez que pontua questões relativas às necessidades educacionais especiais.

B.5 - Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência (Convenção de Guatemala) – 2001


A Convenção da Guatemala foi promulgada no Brasil pelo Decreto nº 3.956, de 08 de outubro de 2001. Essa Convenção reafirma que as pessoas com deficiência têm os mesmos direitos das outras pessoas, assegurando o direito de não serem discriminadas em razão de sua deficiência. Com base nisso, é objetivo desse documento “prevenir e eliminar todas as formas de discriminação contra as pessoas portadoras de deficiência e propiciar a sua plena integração à sociedade” (Artigo 2 º).
No Artigo 1º (nº 2, “a”) a Convenção traz a definição do termo discriminação:
o termo "discriminação contra as pessoas portadoras de deficiência" significa toda diferenciação, exclusão ou restrição baseada em deficiência, antecedente de eficiência, conseqüência de deficiência anterior ou percepção de deficiência presente ou passada, que tenha o efeito ou propósito de impedir ou anular o reconhecimento, gozo ou exercício por parte das pessoas portadoras de deficiência de seus direitos humanos e suas
liberdades fundamentais.
Portanto, a discriminação é compreendida nesse documento como qualquer forma de diferenciação, restrição ou exclusão com base na deficiência.
A Convenção de Guatemala evidencia que as pessoas com deficiência não podem receber tratamento desigual, porém, se o ensino regular for substituído pelo ensino especial, teremos uma forma de tratamento diferenciado. Dessa forma, sendo o ensino fundamental obrigatório (conforme vimos na LDBEN, no item B.4), nenhum aluno pode ser privado desse direito em razão de uma deficiência. Mais uma vez fica claro que o Atendimento Educacional Especializado deve ser complementar e/ou suplementar ao ensino regular para
não ferirmos o disposto nessa Convenção (FÁVERO; PANTOJA; MANTOAN, 2007).
B.6 - Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência – 2006
Essa Convenção foi aprovada pela Organização das Nações Unidas – ONU, no ano de 2006, sendo o Brasil signatário desse documento aprovado pelo Congresso Nacional através do Decreto Nº 186 de 09 de Julho de 2008.
O Artigo 24 dessa Convenção reconhece o direito à educação sem discriminação e com igualdade de oportunidades das pessoas com deficiência. Nesse artigo consta, ainda, que os Estados Partes deverão assegurar que:
a. As pessoas com deficiência não sejam excluídas do sistema educacional geral sob alegação de deficiência e que as crianças com deficiência não sejam excluídas do ensino fundamental gratuito e compulsório, sob a alegação de deficiência;
b. As pessoas com deficiência possam ter acesso ao ensino fundamental inclusivo, de qualidade e gratuito, em igualdade de condições com as demais pessoas na comunidade em que vivem;
c. Adaptações razoáveis de acordo com as necessidades individuais sejam providenciadas;
d. As pessoas com deficiência recebam o apoio necessário, no âmbito do sistema educacional geral, com vistas a facilitar sua efetiva educação; e
e. Efetivas medidas individualizadas de apoio sejam adotadas em ambientes que maximizem o desenvolvimento acadêmico e social, compatível com a meta de inclusão plena.
Esse documento assegura, portanto, o direito de todos os alunos frequentarem o ensino regular, não podendo haver discriminação em razão de alguma deficiência. Podemos perceber também que é garantido o direito ao apoio necessário para facilitar a aprendizagem do aluno com deficiência. Esse
apoio poderá ser oferecido pelo AEE, considerando as necessidades específicas dos alunos.

B.7 - A Política Nacional da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva - Janeiro de 2008


A Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva, de janeiro de 2008, estabelece que a Educação Especial é uma modalidade de ensino que perpassa todos os níveis (Educação Básica e Ensino Superior) e realiza o Atendimento Educacional Especializado. Esse atendimento é complementar e/ou suplementar ao ensino regular, ou seja, não é substitutivo. Portanto, o aluno deve estar matriculado no ensino regular e receber Atendimento Educacional Especializado de acordo com suas necessidades educacionais específicas.
Esse documento define ainda quem são os alunos atendidos pela Educação Especial: alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação.
Tendo em vista esses pressupostos, é interessante destacarmos o objetivo da política:
(...) o acesso, a participação e a aprendizagem de alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação nas escolas regulares, orientando os sistemas de ensino para promover respostas às necessidades educacionais especiais, garantindo:
• Transversalidade da educação especial desde a educação infantil até a educação superior;
• Atendimento educacional especializado;
• Continuidade da escolarização nos níveis mais elevados do ensino;
• Formação dos professores para o Atendimento Educacional Especializado e demais profissionais da educação para a inclusão escolar;
• Participação da família e da comunidade;
• Acessibilidade urbanística, arquitetônica, nos mobiliários e equipamentos, nos transportes, na comunicação e informação; e
• Articulação intersetorial na implementação das políticas públicas(Secretaria de Educação Especial, 2008, p.14).
Dessa forma, a Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva reposiciona a Educação Especial, lançando à escola o desafio de questionar e se implicar no entendimento das diferentes formas de construção de aprendizagem que os alunos possam levar a termo.

B.8 - Decreto nº 186 – Julho de 2008


Esse Decreto aprova o texto da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e de seu Protocolo Facultativo. Essa Convenção foi abordada no item B.6.


B.9 - Decreto nº 6.571 - 17 de Setembro de 2008
O Decreto nº 6.571, de 17 de setembro de 2008, dispõe sobre o Atendimento Educacional Especializado. Esse documento decreta que a União oferecerá apoio técnico e financeiro aos sistemas públicos de ensino a fim de ampliar o AEE. Esse atendimento é definido no documento como sendo “o conjunto de atividades, recursos de acessibilidade e pedagógicos organizados institucionalmente, prestado de forma complementar ou suplementar à formação dos alunos no ensino regular” (Artigo 1º, Parágrafo 1º). Além dessa definição, o decreto traz os objetivos e quais alunos serão atendidos pelo AEE ( alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação) .O decreto contempla também o que são as Salas de Recursos Multifuncionais,
Esse documento traz, ainda, as ações que serão realizadas pelo Ministério da Educação para o Atendimento Educacional Especializado. Dentre
essas ações estão a implantação de Salas de Recursos Multifuncionais, a formação de professores para o AEE, a formação de gestores e professores para a educação inclusiva, as adaptações arquitetônicas das escolas, a produção e distribuição de recursos para a acessibilidade.

B.10 - Diretrizes Operacionais da Educação Especial para o Atendimento Educacional Especializado – AEE na Educação Básica - 2008


As Diretrizes Operacionais da Educação Especial para o Atendimento Educacional Especializado – AEE na Educação Básica foram instituídas com base na Constituição Federal de 1988; na Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação de janeiro de 2008; no Decreto Legislativo nº 186 de julho de 2008 e no Decreto nº 6.571 de 18 de setembro de 2008. Essas diretrizes discorrem sobre o Atendimento Educacional Especializado, sobre o público-alvo, a organização do AEE e sobre a formação e as atribuições do professor. Além disso, as diretrizes abordam a questão do financiamento, afirmando que os alunos público-alvo da educação especial, quando matriculados no ensino regular e no AEE, serão contabilizados duplamente no FUNDEB. Todas essas questões apontadas pelas Diretrizes foram discutidas na Unidade A, por isso não nos deteremos nelas aqui.


UNIDADE C – Educação Inclusiva: um olhar sobre a aprendizagem


Até o presente momento, tratamos dos objetivos e da organização do Atendimento Educacional Especializado. A partir dessa unidade nos deteremos um pouco sobre a questão da aprendizagem5 no espaço escolar, entendida muitas vezes, como peça fundamental para a permanência na escola de alunos com deficiências, transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades/ superdotação, fundamental no sentido de que a apropriação do conhecimento pelo aluno poderá ser o passaporte para que este permaneça ou não na instituição. Afinal, a escola é o lugar instituído e legitimado para o desenvolvimento das capacidades cognitivas das crianças.
Podemos dizer que a escola, enquanto palco responsável pelo processo ensino-aprendizagem, constitui-se numa ferramenta que possibilitará a adoção de um jeito diferente de pensar o aluno que tem dificuldades ou que supostamente não aprende. O convite que fazemos aqui é para pensarmos nesse aluno como um sujeito que estrutura o conhecimento a partir de um tempo que lhe é particular, ancorado na rede tecida pelas diferenças e singularidades do cenário escolar.
A aprendizagem entendida como uma construção realizada pelo aluno é uma instância que merece ser problematizada, uma vez que a abrangência dos seus significados não se traduz num único sentido, mas num infindável universo de possibilidades. Você já pensou sobre a abrangência do conceito de aprendizagem? Afinal, o que é aprender? Como o aluno constrói o conhecimento?
Pensar o conceito de aprendizagem pelos ditames da Educação Inclusiva é pensar na possibilidade de conviver com a surpresa, com o inusitado expresso em cada gesto, cada olhar que o aluno nos dirige. É estar em constante criação de novos sentidos para o que Kupfer (1999) anteriormente chamou de estilos cognitivos de aprendizagem, ou seja, é poder ver cada aluno na forma particular


em que ele se apresenta no mundo da escola. É na vertente de tais idéias que a presente unidade nos inspira a pensar a questão da aprendizagem enquanto efeito de uma oferta para que o aluno com deficiências, transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades/ superdotação, possa se dizer em toda a sua especificidade.
Retornando ao conceito de estilos cognitivos, esse nos remete à singular relação estabelecida pelo aluno com o conhecimento, é a forma como ele transita pelo campo do saber, ou seja, a forma como esse aluno se relaciona com os conteúdos, textos, atividades ofertadas pela escola. A concepção de estilos cognitivos nos faz refletir também sobre o modo como o aluno obtém o conhecimento, convidando-nos a considerar o estilo cognitivo como uma variável a ser considerada frente à criança que “não aprende”.
Para ilustrarmos o que vem sendo tratado até aqui, trazemos o relato de um trabalho desenvolvido com alunos com transtornos globais do desenvolvimento6, em uma escola do ensino regular de Santa Maria-RS.
Esse trabalho acontecia uma vez por semana, durante duas horas, em uma sala de aula da escola. Inicialmente pensávamos em propor um ateliê da escrita, onde pudéssemos trabalhar questões referentes à leitura e à produção de textos. Afinal, o significante escola remete ao significante escrita. Esse ateliê não se sustentou, não com este nome, pois o desejo dos alunos apontou para um outro lugar: o ateliê do conserto.
Para explicar o surgimento do ateliê do conserto utilizaremos o relato do primeiro dia de trabalho. Nesse dia somente o aluno Vagner compareceu. Quando chegamos à escola Vagner já estava lá. De repente uma aluna lhe entregou um carrinho de fórmula 1 e disse: “Te comporta porque se não eu vou te tomar de novo”. Vagner pegou o carro e imediatamente percebeu que havia quebrado uma peça: “Peraí, quebrou!”. Então, a aluna retirou a peça da mochila e entregou para ele. Vagner repetia insistentemente: “Quebrou tia, super-bonder cola né? Cola bem direitinho”. Esse foi o momento em que sugerimos o trabalho daquele dia: consertar o carro de Vagner. Sugestão aceita. Procuramos super-bonder ou cola quente no colégio e não encontramos. Então, fomos até um mercado próximo da escola para comprar a super-bonder, mas também não havia. Propomos consertar o carrinho com fita adesiva. Vagner aceitou e não só quis consertar a parte quebrada como colar fita adesiva em todo carrinho. Vagner era perfeito na colagem e nenhuma parte do brinquedo poderia ficar sem a fita, exceto a cabeça do piloto e os pneus para que estes continuassem rodando. Quando colamos uma fita próxima do pneu ele disse: “O pneu não né tia? O pneu não!”.
A partir desse primeiro encontro com Vagner estruturamos o restante do trabalho. Começamos a trabalhar com sucatas que se transformavam em helicópteros, carros de corrida e instrumentos musicais. Objetos continuaram sendo trazidos e consertados no ateliê.
No decorrer do trabalho do ateliê do conserto pudemos perceber:
- o desejo dos alunos em participarem do ateliê: no segundo dia os alunos já se dirigiram para o ateliê não precisando de convite. Segundo a professora da turma poderia haver resistência em deixarem a sala para se dirigirem ao ateliê, porém, isso não aconteceu.
- a mudança de posição dos pais com relação aos filhos: começaram a percebê-los como sujeitos com desejos próprios. Disse uma das mães: “Até conversando ele está!”
Através desse relato podemos perceber que foi dado a Vagner um lugar onde sua subjetividade e seu estilo de aprender puderam aparecer. Uma vez sendo oportunizado esse encontro o trabalho direcionou-se para produções que oportunizaram uma aprendizagem significativa ao aluno. Outras atividades foram sugeridas, inclusive um trabalho em conjunto com o pai de Vagner para que ambos pesquisassem na internet as partes principais de um carro de Fórmula 1.
Diante disso, é tarefa do professor, face à diversidade de estilos em sala de aula, ajudar o aluno com deficiências, transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades/ superdotação, descobrir o seu jeito de lidar com o conhecimento, tendo sempre em mente que cada sujeito aprende de uma forma única e num tempo que é peculiar a cada estilo.
É importante ressaltar que o aluno aprende quando consegue captar o brilho no olho do mestre ao supor nele um sujeito desejante e capaz de aprender. O entusiasmo do aluno será resultante dos “aspectos subjetivos do ensinante, ou seja, como ele mesmo, sujeito que ensina, mas que também aprende, lida com o saber e o conhecer” (RUBINSTEIN, 2003, p. 136).
A busca pelo conhecimento é um processo que está o tempo todo sendo reinventado e ressignificado. É uma busca traduzida por algo que sempre escapa, por um conhecimento que é fugaz. É importante pensarmos que é na ausência deixada por isso que falta que o novo se evidencia, dando lugar à descoberta e à aprendizagem. É nesse universo de descobertas que encontramos o aluno com necessidades educacionais especiais, um sujeito que está em constantes mudanças e se constituindo na brecha deixada pelo professor quando este permite que ele apareça nas suas especificidades, na sua diferença. Pensando por esse viés, MRECH (1999, p. 28), é pontual ao se referir ao aluno com necessidades educacionais especiais, bem como à proposta da Educação Inclusiva:
é uma maneira nova da gente se ver , ver os outros e a Educação. De se aprender a conviver com as diferenças , as mudanças, com aquilo que está além das imagens. Uma maneira da gente apostar no outro.
Para concebermos a aprendizagem na perspectiva da Educação Inclusiva, teremos que rever a crença de um saber total sobre a forma como os alunos constroem o conhecimento; do contrário, não conseguiremos ver o sujeito que se coloca diante de nós, ou seja, um sujeito que possui falhas e está em constante busca de um lugar para falar de si e de seu saber que por vezes é incompleto. Nessa vertente poderemos pensar o trabalho do professor como sendo uma tarefa em constante criação, um saber pautado na singularidade dos alunos.
Outro aspecto a destacar quando falamos da aprendizagem de alunos com necessidades educacionais especiais são as representações construídas sobre o aluno que “não aprende”.
Representações são formas de pensamento, conceitos, idéias atribuídas às pessoas. Em se tratando dos alunos aqui em questão, pode-se dizer que as representações a eles atribuídas apontam, com frequência, na direção da incapacidade. Dessa forma, como diz GUARESCHI (2006), o aluno poderá colar-se à imagem daquele que não aprende, a fim de assegurar esse lugar no qual será reconhecido pelo professor. Essa antecipação de fracasso dificultará ou até mesmo impossibilitará a aprendizagem do aluno.
Na esteira das concepções sobre as representações sociais, KUPFER (2001, p. 75), lança uma importante questão ao falar sobre os direitos das crianças com necessidades educacionais especiais: “quem pode dizer como se desdobrarão dentro dos limites de um corpo que a Medicina pode apenas vislumbrar, as vicissitudes que marcarão um sujeito?” Transpondo essa idéia para o campo da educação e imaginando os nossos alunos na escola, poderemos perguntar: quem poderá dizer como se desdobrarão as vicissitudes na aprendizagem de um aluno com necessidades educacionais especiais?
Diante do que falamos até aqui, propõe-se que ao invés de pensar em limites, procure-se pensar em singularidades. A partir disso, seria possível considerar tais singularidades reveladas no processo de aprendizagem de cada aluno, buscando, através das suas potencialidades, enlaçá-lo no mundo da escola (ALVES, 2005). Assim, é possível oportunizar a consolidação das aprendizagens dos alunos pensando no caso a caso, trabalhando sempre, como diz LERNER (1997, p. 70), “com a suposição de que a criança é um sujeito, para além de sua sujeição às incapacidades que lhe sejam previstas”.
Para finalizar esse módulo, queremos deixar o convite para que pensemos no Atendimento Educacional Especializado como uma aposta, um desafio em direção a uma educação inclusiva. Para tanto, é importante que a escola exerça seu valor social e se implique de modo a buscar, juntamente com os recursos disponibilizados pelo Atendimento Educacional Especializado um
fazer pedagógico para lidar com os alunos que tem alguma dificuldade. Essa é uma forma dela se implicar no processo, certa de que encontrará alguns entraves, porém, ciente da sua responsabilidade

Referências Bibliográficas:


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BERSCH, R. de C. R.; PELOSI, M.B. Portal de ajudas técnicas para a educação: equipamento e material pedagógico especial para educação, capacitação e recreação da pessoa com deficiência física: tecnologia assistiva: recursos de acessibilidade ao computador. Brasília: ABPEE - MEC/SEESP, 2007.
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Fonte imagem: faccat.br